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Trends Stage

13/08 · 17h40–18h2040 min de sessãoresumo em 6 min

Web3 e a Construção de Comunidades de Aprendizagem

Duas educadoras vindas da favela fecharam o Trends Stage cobrando intencionalidade: sem convite e acolhimento, a Web3 repete a mesma bolha.

Isabel MesquitaAlessandra CaldeiraCarol Santos

O essencial

Contexto

Último painel do Trends Stage, com mediação de Isabel Mesquita, do SESC Tijuca, e duas convidadas que dirigem organizações de educação e tecnologia: Alessandra Caldeira, do Instituto Florescer Caldeira e do programa Mulheres que Codam, e Carol Santos, do Instituto Educar+. Em vez de falar de protocolo, a conversa tratou Web3 como questão de quem entra — e de quem abre a porta.

A sessão em detalhe

Abertura

A pergunta de abertura não foi sobre tecnologia

O painel abriu com Web3 resumida como uma proposta de internet descentralizada, em que se tira a centralidade de um único órgão e as pessoas deixam de ser espectadoras para construir junto. A primeira pergunta posta à mesa, porém, não foi sobre ferramenta: quais competências e habilidades se tornam essenciais para participar como cidadão em ambientes digitais descentralizados. As duas respostas vieram inteiras do lado humano.

Mentalidade de crescimento e vontade gigantesca

A resposta começou pela lista que serve a qualquer mercado: mentalidade de crescimento, inteligência emocional, curiosidade, criatividade e comunicação. Trabalho ali é em parceria e em equipe.

Autoestima porque o mercado não será amigável

Veio em seguida a autoestima, gancho que os jovens trouxeram do encontro da Unicef: é preciso confiança para pôr a ideia na mesa mesmo quando, na sua cabeça, ela não é a melhor.

Coragem entrou na lista como sentimento

Coragem, ficou dito, não é bem uma habilidade: é um sentimento, e sem ele a ideia não chega à mesa. Do palco veio o relato de ter ouvido, no ensino médio, que quem falava tão errado nunca seria professora.

A tese

Nem a IA entrega diversidade: é trabalho humano

Quatro anos de ecossistema desde 2022, organizando eventos e fazendo curadoria, sustentaram a tese que a mesa levou ao palco: diversidade não acontece por acaso — depende de intenção na hora de convidar, de curar e de patrocinar. A sessão registrou o caso de um banner de evento em que alguém perguntou se as duas pessoas negras ali tinham sido escolha deliberada.

A tecnologia é construída por poucas mãos

Se quem constrói é sempre o mesmo grupo, a pergunta é aonde essa tecnologia vai chegar, como vai chegar e quais desigualdades vai atingir. Há jovem que nunca ligou um computador.

Evento institucional é ótimo, mas não basta

Bancos e empresas tradicionais chegando ao ecossistema foi tratado como excelente. O que falta, ficou dito, é gente diferente subindo no palco para falar dos próprios projetos.

Esperar o momento cripto ideal não vai rolar

Por isso o Educar+ se desafia a levar a narrativa para dentro dos territórios periféricos agora, em vez de aguardar um cenário em que a conversa sobre cripto já esteja pronta lá.

O algoritmo, ele é racista. Então ele não vai entregar para a gente a diversidade. É uma necessidade humana. Somos nós, humanos, que vamos buscar por essa diversidade.

Onde concordaram

Ingresso não basta: o que falta é acolhimento

Os objetivos de desenvolvimento sustentável entraram na conversa para sustentar um ponto: ninguém produz impacto grande sozinho — o caminho é parceria multissetorial. Na prática, é conectar o grupo de mulheres da Rocinha com as do Chapadão e as da Zona Oeste, e trazer para dentro de um evento como este quem jamais imaginaria estar ali.

Depois do ingresso vem o onboarding

Dar o ingresso é só o começo: é preciso acolher, explicar o que é aquilo e fazer o onboarding — palavra que a Web3 usa — mostrando o efeito da tecnologia no negócio de cada uma.

Sem essas pessoas aqui, a bolha continua

O argumento é direto: se quem está de fora não entra na sala, o evento segue conversando com a mesma bolha e não promove diversidade nenhuma, por mais painéis que tenha.

O painel só de mulheres deixou de ser exceção

Ficou registrado ser este o Blockchain.RIO com mais diversidade já vista na plateia e nos painéis. Houve edição em que cada painel tinha uma só mulher e o impacto coube a duas vozes. Do palco veio a pergunta: quantos painéis só de mulheres há hoje?

A ruptura

Se é uma nova era, a educação tem que ir junto

Web 3.0 nasceu como termo usado especificamente para blockchain e nem existia no começo dessa trajetória; virou o nome da transição em que o usuário deixa de ser passivo e ganha autonomia para construir. Daí a consequência cobrada da mesa: se é uma nova era, a educação precisa acompanhar, e não dá para voltar atrás.

Ignorar a tecnologia não protege a infância

Os desafios básicos da educação brasileira continuam, mas ignorar as novas tecnologias não melhora processo nenhum e ainda deixa a infância exposta às implicações do cotidiano digital.

A conjuntura histórica só se vê depois

A frase veio de uma professora lembrada no palco: só se enxerga a conjuntura depois que ela passa. Não existe data exata da virada, e por isso a pergunta útil é o que se faz a partir de agora.

Protagonismo é sentar e pensar como implementar

Em vez de esperar a tecnologia chegar pronta, a defesa foi sentar primeiro e pensar como implementar inteligência artificial nos próprios processos educativos.

Prova de campo

As crianças fizeram o deploy antes da explicação

No Educar+ a aposta era que blockchain seria palavra difícil demais para criança. Deu o contrário: meninos e meninas cunharam uma coleção, fizeram o deploy numa rede blockchain e subiram as imagens para um marketplace de NFT, aberto a qualquer pessoa do mundo. Da plateia veio o complemento: as artes viraram uma exposição dentro do próprio Blockchain.RIO.

Não subestimem as nossas crianças

No instituto, os adultos achavam que seria mais difícil explicar; as crianças aprenderam absurdamente rápido. O recado que ficou do palco foi não subestimar a infância nem as escolas.

Antes disso teve Parque Lage e NFT.Rio

A primeira coleção do Educar+ saiu em 2022, no NFT.Rio, evento de cripto no Parque Lage. Os jovens desenharam à mão, a equipe cunhou e subiu os NFTs, e eles foram recebidos ali como artistas.

Cadu pegou o microfone e disse que podia

Cadu, com dificuldade enorme de se expressar, pegou o microfone e disse que ali entendeu que podia. Hoje aprende programação e já foi a Buenos Aires com Lídia para um hackathon internacional.

A ferramenta ainda não chega à escola

Não dá para pôr essa missão na mão de um professor que já cumpre currículo. Escola sem laboratório de informática, criança que só viu celular: falta empresa, instituição e investimento privado.

O recado

Doar meia hora e perguntar quem mais cabe

Antes da rodada final, a conversa foi resumida da mesa como uma metanoia produzida pela informação. Vieram então o voluntariado e a responsabilidade social de cada um, e o fecho virando a lente para quem está ao lado — quem já está na sala e pode abrir a porta para mais alguém. A tecnologia foi tratada como instrumento: o objetivo declarado é desenvolvimento humano, e educação, ficou dito, é repetir até não desistir.

Voluntariado não é só estar presente

Pode ser conectar um projeto a outro, doar tempo, os livros parados na gaveta ou um conselho. Do palco veio o relato de ter aprendido gestão e inovação perguntando às pessoas, não na faculdade.

O computador que sobra na sua casa

Amanda não tinha computador. Uma empresa doou computadores, Adalberto montou um Frankenstein que funcionou, ela avançou nos estudos e hoje é premiada, como Lídia e outros do Educar+.

Meia horinha por semana já é contribuição

O convite final foi doar meia hora da semana, o conhecimento que se tem ou a própria profissão a alguma organização — e perguntar, antes de sair, se a oportunidade cabe mais alguém.

Que a inclusão não vire só tendência

O palco fechou com a lembrança de que ali é o Trends, palco de tendências, e de que aquilo precisa virar um movimento irreversível e progressivo de inclusão, não uma moda.

Essa metanoia através da informação. A informação vai gerando conhecimento nesses jovens. Conhecimento é poder, né?

O que ficou

Assentado

  • Crianças de 10 a 15 anos do Educar+ cunharam uma coleção, fizeram o deploy e expuseram os NFTs no Blockchain.RIO.
  • A mesa convergiu: sem parceria multissetorial e sem intenção na curadoria, a diversidade simplesmente não aparece.
  • Ficou dito, sem contestação na mesa, ser este o Blockchain.RIO com mais diversidade já vista na plateia e nos painéis.
  • As duas organizações trataram a tecnologia como instrumento; o fim declarado das duas é desenvolvimento humano.

Em aberto

  • Como a ferramenta chega à escola pública sem cair no colo do professor ficou posto como pergunta, sem resposta.
  • O financiamento das organizações da sociedade civil foi nomeado como desafio, e nenhum caminho foi apontado ali.
  • Quem patrocina também decide quem sobe ao palco: a mesa nomeou o ponto e não disse como mudá-lo.

Termos citados

Web3
Proposta de internet descentralizada em que a centralidade de um único órgão sai e as pessoas passam a construir junto.
Definição com que o painel abriu a conversa.
Onboarding
A entrada guiada de quem chega: explicar o que é aquilo antes de esperar participação.
Termo do jargão Web3 usado no palco para dizer que o ingresso sozinho não inclui.
Cunhar (mint)
Registrar uma arte na rede blockchain, transformando o arquivo em um NFT.
No Educar+, os jovens desenharam à mão e a equipe cunhou a coleção.
Deploy
Publicar na rede aquilo que foi criado, para que qualquer pessoa possa acessar.
O que as crianças de 10 a 15 anos fizeram com a coleção.
Marketplace de NFT
Vitrine on-line onde qualquer pessoa do mundo pode acessar e comprar os itens publicados.
Destino das imagens subidas pelas crianças do Educar+.
Hackathon
Competição em que equipes desenvolvem um projeto de tecnologia em tempo limitado.
Jovens do Educar+ participaram de um da Unicef dentro do Blockchain.RIO e de um internacional em Buenos Aires.
Síndrome da impostora
Sensação de não pertencer ao espaço mesmo tendo estudado e sabendo da própria capacidade.
Relatada no palco a partir do teste do pescoço: olhar para os lados e não se reconhecer em ninguém.
Parceria multissetorial
Arranjo entre setores diferentes para produzir um impacto maior do que o alcançado por uma organização sozinha.
Trazida dos objetivos de desenvolvimento sustentável como condição de qualquer projeto.

Citados na sessãoSESC Tijuca·Instituto Educar+·Instituto Florescer Caldeira·Mulheres que Codam·Unicef·Blockchain.RIO·NFT.Rio·Parque Lage·Rocinha·Chapadão·Zona Oeste·Buenos Aires

TemasEducação·Inclusão Digital·Web3·Diversidade·Terceiro Setor

Quem falou

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

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