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Main Stage

12/08 · 13h20–14h0040 min de sessãoresumo em 11 min

Liquidez global, regra local: o impasse do mercado de ativos digitais

Blockchain provou servir a pagamentos e mercados — o que trava agora não é a tecnologia, é a fronteira que a regra local desenha na liquidez.

Aaron StanleyEduardo ProtaGuilherme BissoliVinicius 0xCokinhaFelipe Maurano

O essencial

Contexto

Painel em inglês no Main Stage com três modelos de negócio na mesma mesa: uma exchange que juntou trading e trilho de pagamento, um app de pagamento que quer ser invisível para o usuário e a expansão global de uma plataforma filipina de 18 milhões de usuários. O ponto de partida foi o balanço de 2026 — depois de uma década de pilotos e bolhas, ficou claro para que blockchain serve de fato: pagamentos globais e mercados. Daí em diante a conversa deixou de ser técnica e virou fronteira: a infraestrutura já está pronta, o volume esperado não veio, e a discussão decisiva no Brasil é a exigência de liquidez local com o prazo de licenças de fim de outubro chegando.

A sessão em detalhe

Abertura

Duas vocações, e o resto talvez não precise de blockchain

A abertura fez o balanço de uma década antes de olhar para a frente: houve pilotos de todo tipo, bolhas de todo tipo e uma quantidade de produtos que simplesmente não funcionaram. O que 2026 deixou claro, foi o argumento, é para que blockchain serve de fato — pagamentos globais e mercados. O que cabe nesses dois baldes encontra ali uma tecnologia extraordinária; o que não cabe talvez nem precise dela. Os três negócios sentados no palco foram apresentados justamente como habitantes desses dois baldes, ou da costura entre eles.

O balanço veio antes da promessa

A sessão começou pelo que não deu certo — dez anos de experimentos, ciclos e produtos abandonados — e só depois passou ao que sobrou de pé. Foi esse filtro que organizou a conversa inteira.

Cripto no cotidiano, não no portfólio

A leitura apresentada foi de que o que se conseguiu construir até aqui é infraestrutura, remessa e mercado de capitais. A aposta declarada de um dos modelos é a etapa seguinte: pagamento de todo dia, dentro da vida das pessoas em cada país.

Blockchains são muito boas para pagamentos globais e muito boas para mercados. O que não cabe nesses dois casos de uso, talvez você nem precise usar blockchain.

A tese

Licença, canal fiat e spread não atravessam a fronteira

A lição mais concreta do painel veio de quem comprou uma plataforma filipina com 18 milhões de usuários — nascida de remessas e turbinada pela era do Axie Infinity — e tentou levá-la para outros mercados. Não se leva uma licença de um país para outro sistema financeiro, que tem regras próprias e permite coisas próprias. Acesso a canais fiat e a spreads competitivos, as duas coisas que todo mundo assume serem globais, também não se exportam: dependem de fatores que descem fundo na relação bancária de cada país. A conclusão apresentada é de arquitetura, não de estratégia comercial — é preciso um núcleo global, e cada mercado vira um adaptador ligado a esse núcleo.

O que atravessa é a operação

A experiência acumulada foi descrita como majoritariamente de fintech, com poucas funcionalidades novas de cripto. Essa parte, a da operação, é exportável. Banco e liquidez são o oposto: exigem um posicionamento local forte, construído de novo em cada mercado.

Entrar cedo na consulta regulatória

A expansão para o Brasil foi datada do início da consulta pública sobre a nova regulação, com operação já ativa em USDT e foco atual em clientes asiáticos. A leitura assumida é de longo prazo: empurrar o produto local depois que a regra entrar em vigor.

Um núcleo global com adaptadores locais

Foi a formulação usada para resolver a contradição entre escala e fronteira: o produto e a liquidez ficam no centro, e cada país recebe a camada que o conecta ao centro — licença, banco, canal de entrada e saída.

Acesso a canais fiat, acesso a spreads competitivos: são coisas que a gente assume que podem ser globais. Pela nossa experiência, não é copiar e colar.

Em produção

Tudo sob o mesmo teto, o pagamento invisível e a exchange que virou de pagamentos

Os três modelos foram apresentados como respostas diferentes à mesma convergência. O primeiro põe tudo sob o mesmo teto: depósito em real convertido em dólar em milissegundos, um app simples em que se compra o primeiro Bitcoin em poucos toques sem saber o que é order book ou ordem limitada, e uma versão profissional com todos os pares, todas as ordens e os mesmos padrões de segurança para quem opera fundo — mais ações tokenizadas, já negociáveis na América Latina e ainda não totalmente liberadas no Brasil. A aquisição de um trilho de pagamento e emissor de cartão foi descrita como a virada de chave: o dólar deixa de ser só investimento e passa a ser ativo transacionável.

A meta declarada é ser invisível

O segundo modelo recria o banco digital dentro do mundo cripto, mas com uma diferença marcada no palco: não como porta para o usuário negociar e a empresa extrair receita, e sim para a vida real. Pagamentos primeiro, depois crédito e investimento — sem exigir que ninguém entenda carteira, blockchain ou trading.

O cliente ganha em dólar e vive em vários países

O perfil descrito é de quem recebe do exterior, em dólar ou stablecoin, e precisa gastar em qualquer lugar — o sistema bancário tradicional não foi feito para essa pessoa. O app se conecta a carteiras de autocustódia e retira o cripto na hora do pagamento. O surfista Filipe Toledo foi convidado como encarnação exata desse perfil.

Do B2C para o B2B

Não são só pessoas viajando: empresas têm o mesmo problema. Entrou em operação a emissão de cartões corporativos para equipes gastarem em outros mercados e o envio de pagamentos, em cripto ou por remessa bancária, em 80 países.

O order book recebendo quem não era esperado

O terceiro modelo se descreveu virando uma exchange de pagamentos em cripto: a onda de stablecoin trouxe para o livro empresas de pagamento que antes não estavam ali. Não é um público de trading — é quem precisa mover dinheiro entre países.

No fim das contas, queremos fazer algo tão fácil que a pessoa nem precise pensar que é cripto. Nosso objetivo é ser invisível.

Os números

A infraestrutura ficou pronta, o volume não veio — e parte dele nunca aparece

O paradoxo de 2026 foi posto na mesa sem rodeio: a expansão de infraestrutura é quase sem paralelo — mercados globais e a adoção acelerada de perpétuos entraram como exemplo —, tudo está pronto para rodar, e o volume esperado não veio. Desde o grande wipeout de outubro do ano passado, o mercado não se recuperou de verdade. Todo mundo está construindo, e os números não acompanham.

A resposta dada no palco desloca a pergunta em vez de responder de frente: uma parte relevante desse volume existe e simplesmente não é visível. Os pagamentos em stablecoin que movem dinheiro entre países são fechados via OTC, negociação direta ou RFQ — não passam pelo order book e não entram nos volumes reportados publicamente, porque essas operações são privadas. É por isso, ficou dito, que o mercado parece menor do que é. O indicador honesto é outro: atividade on-chain.

Quem move dinheiro globalmente não negocia em tela

O trabalho descrito é justamente trazer esses players — empresas de pagamento que usam stablecoin para mover dinheiro entre países — para dentro do livro. Hoje eles operam por fora, e a conta pública fica incompleta.

Onde o próximo volume pode nascer

Com tudo sob o mesmo teto — cripto puro, ativos tokenizados e trilho de pagamento em stablecoin —, o argumento apresentado foi que a liquidez precisa ser própria e que o próximo público não é o especulador, mas quem quer negociar coisas com fundamento por trás.

Sujar as mãos com o que ninguém quer olhar

A adoção real, segundo outra leitura da mesa, passa por resolver o que a indústria prefere fingir que não existe: quem ganha em dólar não sabe o que declarar nem que imposto pagar, e com empresas é igual. O trabalho é fazer isso sumir para o usuário, não para quem constrói.

Hoje a maior parte dessas operações é feita via OTC ou RFQ, e você não vê isso nos order books nem nos volumes reportados pelo CoinGecko. O que reflete é a atividade on-chain — acho que é um indicador muito melhor.

O que trava

Order book brasileiro contra mercado global: o impasse com prazo

A consulta regulatória brasileira abriu uma briga que a sessão não resolveu: se quem opera aqui precisa ter order book e liquidez brasileiros. As razões do regulador foram reconhecidas no palco e, ao mesmo tempo, a exigência foi descrita como algo que derrota o próprio ponto de um mercado global de ativos digitais — acessar liquidez, produtos e preços melhores do que um livro local, mais limitado, consegue oferecer. Com o regime de licenças previsto para entrar em vigor no fim de outubro, o que existe hoje é contorno, não solução: liquidez central com provedores locais para o off-ramp, mais simples do que o que os bancos precisam fazer e ainda assim admitidamente não resolvido.

Do outro lado da mesa veio a relativização: ninguém está impedido de negociar fora do Brasil, e produtos indisponíveis aqui voltam a ficar disponíveis quando a pessoa sai da jurisdição. O que muda é o que pode ser oferecido e divulgado dentro do país. E a régua local tende a empurrar o usuário para o produto mais simples — sem derivativos, sem opções, com incentivo fiscal para negociar aqui e uma trava confirmada de 24 horas para saque de cripto. Mais estabilidade, ficou dito, e menos volume.

O trader que tenta sacar às duas da manhã

Foi o exemplo usado para mostrar o custo do livro fragmentado: o brasileiro que opera numa exchange de fora e decide encerrar posição de madrugada não encontra liquidez local do outro lado. E o ponto que o regulador tem mais dificuldade de entender, ficou dito, é justamente por que a negociação não acontece dentro do país.

Esperar um dia por uma transação não é produto

A alternativa ao arranjo global foi descrita como inviável na prática: não vale a pena trabalhar com algo assim. O pedido feito ao setor foi de participação ativa na construção de regras que permitam operar globalmente — sob a advertência explícita de que sem isso o mercado pode acabar.

O uso local não é o mesmo do global

A leitura apresentada foi que a liquidez global usada por aqui serve hoje sobretudo a trading, enquanto o público que entra pelo lado fiat usa cada vez mais para pagar faturas no exterior. São dois mercados diferentes sendo tratados pela mesma regra.

É muito importante que nós, aqui no cripto, ajudemos a construir as regras que nos permitam operar globalmente. Senão, podemos acabar com o mercado.

Prova de campo

Todo domingo, o XRP dos filipinos esmagava o livro

O caso filipino entrou como prova de campo do corredor Ásia–América Latina — duas regiões descritas como periféricas ao sistema bancário do Swift, onde o dinheiro precisa passar por Nova York e por uma fila de intermediários, demora muito e sai caro. Os OFWs, filipinos que trabalham fora, remetiam dinheiro para casa toda semana: iam à Western Union, à loja de conveniência, e mandavam XRP dos Estados Unidos para as Filipinas. Sempre no domingo — um pico semanal que, na expressão usada no palco, esmagava o livro da exchange. Depois vieram as stablecoins.

Comerciantes que já liquidavam em stable

A plataforma operava como provedora de serviços de pagamento para comerciantes internacionais nos trilhos locais InstaPay e PESONet — e descobriu que esses clientes já vinham liquidando em stablecoin havia um bom tempo, sem que ninguém tivesse desenhado isso.

Pagar cada um na moeda dele

O efeito percebido assim que a migração aconteceu foi esse: dá para pagar alguém na moeda dele, de onde quer que essa pessoa esteja. É a definição prática do que se chamou de mercado global — e ela não passa por tela de negociação.

Um experimento humano ao vivo

O uso de stablecoin nas Filipinas foi descrito nesses termos, com aumento estimado do PIB pela redução das ineficiências de intermediação e trabalho conjunto com o BSP, o banco central do país. O número do impacto não foi apresentado.

O tesouro escondido da aquisição

A base de usuários herdada veio da era do GameFi, com Manila descrita como capital do Axie Infinity e o time do jogo instalado por lá. Veio junto a ressalva: nem toda história que circulou sobre pessoas sustentando a família jogando durante a pandemia era necessariamente verdade.

Todo domingo eles remetiam via XRP. E aquilo esmagava o livro.

O recado

Talvez não venha um bull market: venha a fronteira aberta

O fechamento pediu para redefinir a palavra. Em vez do próximo ciclo de alta, a leitura apresentada foi de base sendo assentada agora, inclusive pela regulação — restritiva no primeiro momento, estabilizando o mercado e tirando volume dele. O que foi chamado de bullish é outra coisa: abrir fronteiras para tipos de comércio que hoje dependem do Swift. O exemplo é literal — há negócios filipinos operando no Brasil e não existe par direto entre real e peso filipino; o dinheiro só se move passando por trilhos que ninguém escolheu.

O que se espera dos próximos meses

De um lado, pedido de licença em andamento e foco em levar para o B2B a facilidade já entregue no app de varejo. Do outro, o reconhecimento de que a licença é muito difícil de obter e o prazo pode escorregar para o ano que vem — seguido da promessa de fazer acontecer em outubro, com Brasil e América Latina descritos como mercados prioritários.

O Brasil poderia ser o hub, mas pede CPF

A proposta feita à sala foi usar o Brasil como porta de entrada da América Latina, oferecendo liquidez e custódia para os outros mercados, com expansão já em curso para Colômbia e Argentina. A barreira apontada é operacional e concreta: hoje é preciso CPF para abrir conta, e não há caminho por passaporte.

O próprio evento como termômetro

Na quinta edição acompanhada, o registro foi de um Blockchain.RIO cada vez mais internacional: no primeiro ano não havia painéis em inglês. E de um Brasil cada vez mais reconhecido como mercado de casos de uso reais, com sistema de pagamentos avançado e um ambiente regulatório que, no geral e apesar do descontentamento com o licenciamento atual, apoia inovação.

Vou precisar redefinir o conceito de bullish. Para mim, bullish é abrir fronteiras para tipos de comércio que hoje dependem muito do Swift.

O que ficou

Assentado

  • Os pagamentos em stablecoin entre países são fechados hoje via OTC, negociação direta e RFQ, fora dos order books e dos volumes reportados publicamente.
  • Nas Filipinas, as remessas migraram do XRP semanal para stablecoins, com liquidação nos trilhos locais e trabalho junto ao banco central do país.
  • Ações tokenizadas já são negociadas na América Latina, mas não estão totalmente liberadas no Brasil.
  • O contorno em uso para a exigência de liquidez local é liquidez central com provedores locais de off-ramp — descrito no palco como paliativo, não como solução.
  • A regra local já confirmou uma trava de 24 horas para saque de cripto, apresentada como ganho de estabilidade e perda de volume.

Em aberto

  • Se o prazo de fim de outubro para o regime de licenças se mantém: a mesa se dividiu entre quem trabalha para cumpri-lo e quem aposta na prorrogação.
  • Como acomodar liquidez global sem exigir order book local: nenhuma resolução foi apresentada, e o alerta é de que a exigência pode acabar com o mercado.
  • De onde virá o próximo ciclo de volume, já que a leitura apresentada foi de que talvez não haja um bull market clássico, e sim uma base sendo montada.
  • O impacto das stablecoins no PIB filipino entrou como estimativa, sem número apresentado na sessão.
  • A exigência de CPF trava o Brasil como hub de liquidez e custódia da região, e nenhum caminho alternativo foi apresentado.

Termos citados

Order book
Livro de ofertas onde compra e venda se encontram dentro de uma exchange, formando preço e liquidez visíveis.
A exigência de um livro brasileiro foi o centro da discussão regulatória da sessão.
OTC e RFQ
Negociação fechada fora do livro: direto entre as partes, ou por cotação sob demanda pedida a um provedor de liquidez.
É por onde corre o volume de pagamentos em stablecoin que não aparece nos números públicos.
Off-ramp
Saída do cripto para moeda local, com o dinheiro chegando na conta bancária do usuário no país dele.
Provedores locais de off-ramp são o contorno atual para operar com liquidez central.
OFW
Overseas Filipino Worker: o filipino que trabalha fora do país e envia dinheiro para a família nas Filipinas.
Era esse fluxo semanal que chegava em XRP todo domingo, antes da migração para stablecoins.
Regime de licenças (VASP)
Autorização exigida de quem presta serviço com ativos virtuais no Brasil, definida na regulação em consulta.
Previsto para entrar em vigor no fim de outubro, com todos os modelos do palco em processo de pedido.
Ações tokenizadas
Representação on-chain de ações e ETFs, negociável dentro da própria exchange de cripto, citada no palco como xStocks.
Disponíveis na América Latina e ainda não totalmente liberadas no Brasil.
Marcos citados
  1. ~2021Auge do GameFi, com Manila descrita como capital do Axie Infinity — a base de usuários que a aquisição da plataforma filipina herdou.
  2. Outubro de 2025O grande wipeout citado como o marco a partir do qual o volume do mercado não se recuperou de verdade.
  3. Fim de outubro de 2026Prazo em que o regime de licenças brasileiro deve entrar formalmente em vigor — com divergência no palco sobre se será mantido ou prorrogado.

Citados na sessãoOobit·Kraken·Coins.ph·Coins.xyz·Tether·xStocks·CoinGecko·Hyperliquid·Ondo·USDT·XRP·Western Union·InstaPay·PESONet·BSP·Axie Infinity·Swift·Revolut·Blockchain.RIO

TemasPagamentos globais·Stablecoins·Regulação VASP·Exchanges·Corredor Ásia–LatAm

Quem falou

Também na programaçãoVinicius 0xCokinha

A seguir neste palco

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

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