12/08 · 14h30–15h1040 min de sessãoresumo em 11 min
A stablecoin sai do trading e vai disputar o câmbio
O painel tirou a stablecoin do trading e a pôs no câmbio — e respondeu com aritmética à acusação de que tudo isso é distorção de mercado.
5ºpaís do mundo em movimentação de Bitcoin, USDT e USDC, sendo a 11ª economiadado apresentado no painel
5 a 10 minpara liquidar em stablecoin, contra quatro bancos e 3 a 5 dias úteis no rito tradicionalcomparação feita no painel
US$ 600era o teto de compra de dólar na Argentina de 2022, e ele criou o mercado paralelorelato trazido ao palco
20%de cashback que bancos brasileiros alternam por dia da semana, contra 3% a 5% dos cartões criptocomparação feita no painel
O essencial
A stablecoin foi apontada como o único produto do cripto com product-market fit
Nos últimos 12 meses ela virou o killer application do setor, e a pergunta que interessa já não é se serve para trading, mas quais são os casos de uso fora dele. Depois de vários ciclos de promessa, é o produto que resolve uma dor real.
O Brasil pesa em cripto muito acima do próprio PIB
É a 11ª economia do mundo e o 5º país em movimentação de Bitcoin, USDT e USDC. E, pelo próprio Banco Central, a maior parte das transações cripto no país já não acontece em Bitcoin: acontece em stablecoin.
O alvo declarado é o mercado de câmbio
Um mercado historicamente fechado, com poucas instituições autorizadas e antiquado em tecnologia. A comparação apresentada foi com a abertura das instituições de pagamento há dez anos: do monopólio de poucas casas para 100, 200 instituições no Brasil.
A resposta à acusação de distorção veio em três frentes
Nas moedas exóticas o sanduíche de stablecoin já é mais eficiente; o custo transacional tende a zero conforme a competição aumenta; e a distorção pode ter sido criada antes, pelos próprios bancos centrais — caso do teto de US$ 600 na Argentina de 2022.
No B2C, quem decide o jogo é o cashback
O mercado brasileiro é regional e agressivo em benefício: um banco dá 20% num dia da semana, outro no dia seguinte, contra 3% a 5% dos cartões cripto. O que ganha é experiência sem atrito somada a benefício real, não tecnologia.
A disputa regulatória é sobre chamar a stablecoin de depósito bancário
O prazo de adequação dos VASPs vence no fim de outubro e já existe trava de 24 horas para stablecoin destinada ao exterior, mas o tema de fundo é outro: o enquadramento como depósito bancário tokenizado, que empurraria a atividade para dentro de quem tem licença bancária.
Contexto
Painel do Main Stage sobre o momento em que a stablecoin deixa de ser ferramenta de trading e vira trilho de pagamento. A mesa reuniu quatro camadas da mesma esteira: orquestração de pagamento entre América Latina e Ásia, infraestrutura regulada para operar stablecoin no Brasil, cartão que gasta stablecoin na rede Visa e autocustódia em hard wallet. Menos evangelização e mais operação: custo, prazo, a devolutiva ao artigo de Roberto Campos Neto e o calendário regulatório dos próximos meses.
A sessão em detalhe
Abertura
O killer application já não é sobre trading
A pergunta que abriu o painel não foi se stablecoin funciona. Nos últimos 12 meses ela virou a coisa mais quente do cripto — o killer application, na palavra usada no palco — e o que interessa agora são os casos de uso fora do trading, onde ela já servia desde o início. O tabuleiro veio em seguida: o Brasil é a 11ª economia do mundo, mas o 5º país em movimentação de Bitcoin, USDT e USDC, e o próprio Banco Central já apontou que a maioria das transações cripto no país não acontece em Bitcoin, e sim em stablecoin.
A mesa foi montada em camadas da mesma esteira: orquestração de pagamento entre América Latina e Ásia, infraestrutura regulada para que players estrangeiros e locais operem stablecoin no Brasil, cartão que transforma a stablecoin parada na carteira em ativo gastável e autocustódia em hard wallet no formato de anel e cartão. A leitura que ficou da rodada de apresentações foi de mudança de fase: o mercado saiu do cenário de cripto como aposta e entrou no de cripto como infraestrutura.
Corredor de liquidez, não ativo de aposta
A stablecoin foi descrita como o dólar digital que serve de corredor de liquidez para depois liquidar um pagamento nos Estados Unidos, na Europa ou na China. É o trilho por onde o dinheiro passa, não o ativo em que se aposta.
O importador que paga a China em minutos
O caso-alvo apresentado é o importador que precisa pagar um fornecedor chinês. Na finança tradicional a operação leva dias e carrega cerca de 3% de forex fixo no swap cambial; com on-ramp e off-ramp em stablecoin, o pagamento sai direto para o fornecedor.
Depois de dez anos de boom, um produto que resolve dor
O balanço de quem acompanha o setor há uma década listou os ciclos: Bitcoin, Ethereum, as blockchains de segunda e terceira geração, uma enxurrada de empresas resolvendo problemas que não precisavam de blockchain. A stablecoin foi apontada como a exceção — e o desafio declarado é torná-la cada vez menos nerd.
Praticamente o único produto do mercado cripto que alcançou product-market fit. Basicamente, é um produto que resolve uma dor real.
A tese
O próximo mercado a abrir é o câmbio
O enquadramento apresentado foi de abertura, e não de ruptura: o momento seria um dos mais revolucionários do mercado financeiro em décadas, comparável ao que aconteceu com as instituições de pagamento há dez anos, quando o monopólio de poucas casas virou 100, 200 instituições de pagamento no Brasil. O alvo agora é o câmbio — historicamente concentrado em poucas instituições autorizadas e, por isso mesmo, fechado e antiquado em tecnologia. A previsão feita no palco é que em pouco tempo as stablecoins dominem esse mercado, não como moeda, mas como infraestrutura tecnológica.
O capital parado que a fintech deixou de precisar
A vantagem apontada como pouco falada: o banco de câmbio precisa manter milhões de dólares parados em conta de banco correspondente no exterior para operar. A fintech recebe a ordem do cliente e compra o dólar digital na hora, sem esse capital imobilizado — o Banco Central exige patrimônio líquido na casa dos 16 a 20 milhões de reais para dar solidez, mas não dezenas de milhões de dólares parados.
Nicho hoje diante do volume do câmbio
Ficou reconhecido no palco que, comparada ao volume anual do mercado cambial, a stablecoin ainda é um nicho. A aposta apresentada não é que o nicho cresça sozinho, e sim que a tecnologia vire o trilho por baixo do mercado inteiro.
Educar o cliente virou parte do produto
Quem faz a ponte entre o ativo digital e a operação tradicional descreveu o próprio trabalho como sendo, antes de tudo, de educação: existe um gap de entendimento no mercado, e a vantagem de custo e de tecnologia só é comprada por quem entende o que está comprando.
Em pouco tempo, as stablecoins vão dominar o mercado de câmbio como infraestrutura tecnológica.
Onde divergiram
O artigo que chamou a adoção de distorção de mercado
O trecho mais denso da sessão foi a devolutiva a um artigo publicado dias antes por Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central e reconhecido no próprio palco como campeão da inovação financeira. O texto sustenta que a adoção de stablecoin vista em países com controle de capital é um workaround, ou seja, distorção de mercado e não eficiência tecnológica; que o sanduíche — converter real em stablecoin e a stablecoin na moeda de destino — sai mais caro que serviços de remessa como Wise e Remitly, porque a transação na blockchain é quase de graça mas o on-ramp e o off-ramp não são; que as carteiras de autocustódia deixam o fluxo fora do perímetro regulatório; e que faria falta uma alternativa pública, na linha do DREX.
A mesa concedeu uma parte: em eixos de moeda forte, como Estados Unidos e Europa, a crítica tem razão e a vantagem da stablecoin não está no preço. Fora desses eixos — América Latina, África, Sudeste Asiático — o quadro é outro, porque o público busca proteção do patrimônio e vai encontrá-la no dólar ou no euro. E aí a pergunta do artigo foi virada do avesso: as stablecoins criam uma distorção de mercado, ou revelam uma distorção que já havia sido criada pelos próprios bancos centrais?
Seiscentos dólares na Argentina de 2022
O relato pessoal trazido ao palco: em plena hiperinflação, a compra permitida era de 600 dólares. O limite estatal criou naturalmente o mercado paralelo — quem tinha peso topava vendê-lo bem mais barato, sabendo que amanhã valeria menos ainda.
Autocustódia como patrimônio portátil
A resposta ao ponto do perímetro regulatório veio pelo avesso: com as chaves no anel ou no cartão, o patrimônio viaja junto com a pessoa para qualquer lugar do mundo. A stablecoin, nessa leitura, não é só meio de pagamento — é infraestrutura financeira global.
A custódia institucional que o artigo não considerou
Sobre o argumento de que tudo roda em autocustódia: os players institucionais do Brasil e de fora usam custódia institucionalizada, com terceira parte fazendo segregação por cliente. A autocustódia é uma escolha do usuário final, não o padrão do fluxo regulado.
Será que as stablecoins criam uma distorção de mercado, ou revelam uma distorção de mercado já criada pelo próprio banco central?
Prova de campo
Quatro bancos e cinco dias, contra dez minutos
A devolutiva à crítica de custo veio como aritmética. O rito tradicional de um pagamento internacional envolve quatro bancos — o do remetente, os intermediários e o do destinatário — e de três a cinco dias úteis. Com on-ramp e off-ramp em stablecoin, a conta apresentada foi de 5 a 10 minutos, com o pagamento saindo direto ao fornecedor. No rastro, a diferença apontada foi ainda maior: o KYT daquela transação fica gravado para sempre no ledger, contra o rastreio limitado que se obtém no SWIFT.
O custo do sanduíche mora fora da blockchain
A concessão foi explícita: a transação on-chain é quase de graça, o custo está na conversão. No Brasil, comprar uma ação na B3 custa um ou dois reais, enquanto a conversão numa exchange pode custar 0,10% do valor — o que, em ticket grande, pesa. Com mais competição, o custo transacional tende a zero.
Nas moedas exóticas, o sanduíche já ganha
A crítica de custo foi aceita para um par forte — real e dólar, talvez real e euro. Fora disso, do real para o peso argentino e para a maioria dos pares chamados de moedas exóticas, o sanduíche de stablecoin já é mais eficiente que o trilho bancário tradicional.
A liquidez que o DREX criaria já existe
Sobre a proposta de uma infraestrutura pública, a resposta foi que o bolsão de liquidez já está montado: há mercado nas exchanges e entre as prestadoras de serviço de ativos virtuais, funcionando sem intervenção do regulador. O papel do regulador seria dar as regras, não construir a infraestrutura.
Tentar controlar tecnologia nova é padrão histórico
Do rádio à televisão e à internet, a primeira reação institucional sempre foi tentar controlar a tecnologia que ameaça o ambiente existente; a adoção vem depois. O que se pediu ao regulador foi neutralidade tecnológica, e não cortar as vantagens que a tecnologia tem a oferecer.
Se falamos de velocidade, de custo e de tracking daquela transação, a tecnologia é muito superior.
Em produção
A última milha não é técnica: é cashback
Quando a conversa desceu ao usuário final, o obstáculo apontado deixou de ser tecnologia. O mercado brasileiro foi descrito como muito regional e agressivo em benefício: um grande banco dá 20% de cashback num dia da semana, outro dá no dia seguinte, e o cartão cripto, que devolve de 3% a 5%, entra nessa disputa em desvantagem. O usuário de cartão de stablecoin foi caracterizado como movido por taxa e recompensa — e o que ganha o jogo, convergiu a mesa, é a interseção entre experiência sem atrito e benefício real.
Ecossistema em cima da base que já existe
Mais de 6 milhões de hard wallets vendidas, sem hack registrado e com cinco anos de garantia, viram base sem custo de aquisição: em vez de pagar CAC para conquistar usuário novo, entrega-se pagamento como camada adicional a quem já faz autocustódia.
Gastar a stablecoin que já está parada na carteira
A proposta da outra ponta é a última milha: pegar o USDT e o USDC que o brasileiro já tem na carteira e transformá-los em ativo gastável na rede Visa — hoje mais de 100 milhões de estabelecimentos e mais de 8 milhões de usuários no mundo.
Dois ângulos diferentes do mesmo mercado
Ficou explícito que as empresas na mesa atacam o mesmo mercado por ângulos distintos: de um lado a força em hard wallet e autocustódia, de outro o uso da stablecoin no dia a dia para pagar bens e serviços. A convergência é o ecossistema montado sobre a base já conquistada.
Um banco em dólar para quem não tem acesso ao dólar, em países que não oferecem esse acesso. Bancos para os desbancados.
O que trava
Enquadrar a stablecoin como depósito bancário tokenizado
O ano foi descrito como de regulação intensa dos prestadores de serviço de ativos virtuais, e o calendário estava sobre a mesa: o prazo de adequação dos VASPs vence no fim de outubro, e na semana anterior ao painel saiu resolução criando trava de 24 horas para transações com stablecoin cujo destino é o exterior, com exceções previstas para alguns fluxos. O tema central, porém, é outro: a tentativa de encaixar a stablecoin como uma espécie de depósito bancário tokenizado, movimento que levaria a atividade para dentro de quem tem licença bancária.
Dez anos, 100% privado, raríssimas falhas
O argumento do setor: um produto financeiro com cerca de dez anos de existência, inteiramente privado, que atingiu o mundo todo com trilhões de dólares de movimentação e pouquíssimas falhas. O que se defende é um arcabouço pró-mercado, em vez de empacotar o conceito no arcabouço tradicional.
Projeto de lei em discussão no mesmo dia
Havia discussão no Congresso no próprio dia do painel sobre um projeto de lei do tema. O recado foi de atenção do setor, para que a salvaguarda regulatória não jogue no arcabouço antigo toda a inovação já construída em pagamentos internacionais.
O mercado foi muito bem-sucedido na criação do produto stablecoin. É um produto super sólido, com raríssimas falhas.
O recado
Clareza, parceiro local e o usuário que nem precisa saber
O painel fechou em lightning round, com a pergunta sobre o que ainda barra a adoção agora que a barreira regulatória vem caindo pelo mundo. As três respostas não se repetiram: clareza do regulador, camada local regulada em cada jurisdição e uma dupla de educação e abstração.
Clareza regulatória como fórmula matemática
A cadeia descrita foi encadeada: com clareza do regulador, a empresa sabe como se posicionar; posicionada, fica atraente para o cliente; atraente, escala. O Genius Act já em pé nos Estados Unidos e o Clarity Act esperado entre outubro e dezembro foram os marcos citados.
O guardião local de cada jurisdição
Uma plataforma global de cartão que atende o mundo inteiro precisa de um parceiro regulado no Brasil, outro na Argentina, outro na Europa e nos Estados Unidos. A escalabilidade do produto financeiro com cripto passa por essa camada local — e a regulação foi tratada como necessária, não como inimiga.
Educação e abstração, nessa ordem
Fora de eventos como este, o cliente ainda reduz cripto a comprar e vender Bitcoin, e muita gente sequer sabe que existe moeda digital estável. O passo seguinte é a abstração: simplificar o onboarding até o ponto em que quem só quer pagar ou poupar não precise entender a tecnologia.
O usuário utilizar stablecoins, mas não necessariamente saber que está utilizando stablecoins. Não precisa saber que é stablecoin, precisa saber que está pagando mais barato.
O que ficou
Assentado
O Brasil é a 11ª economia do mundo e o 5º país em movimentação de Bitcoin, USDT e USDC — e, pelo próprio Banco Central, a maioria das transações cripto no país já é em stablecoin.
No rito tradicional, um pagamento internacional passa por quatro bancos e de três a cinco dias úteis; com stablecoin, a conta apresentada foi de 5 a 10 minutos.
A mesa concedeu que, em eixos de moeda forte como Estados Unidos e Europa, a vantagem da stablecoin não está no preço.
O prazo de adequação dos VASPs vence no fim de outubro, e já existe resolução criando trava de 24 horas para stablecoins destinadas ao exterior.
Em aberto
Se a stablecoin será enquadrada como depósito bancário tokenizado: o projeto seguia em discussão no Congresso no dia do painel, sem desfecho.
Quanto o custo do sanduíche cai de fato: disse-se que tende a zero com a competição, mas nenhum número de custo atual foi apresentado além da comissão de 0,10% na exchange.
Como o cartão cripto responde ao cashback de 20% dos bancos brasileiros: a proposta declarada é somar experiência e benefício, mas nenhuma taxa concorrente foi dita.
O conteúdo final e a data exata do Clarity Act: a janela citada foi apenas entre outubro e dezembro.
Termos citados
Sanduíche de stablecoin
Conversão de real em stablecoin e da stablecoin na moeda de destino, usada para pagar fora do país.
É o alvo da crítica de custo do artigo, e a defesa foi que nas moedas exóticas ele já ganha do trilho bancário.
On-ramp e off-ramp
Entrada e saída entre moeda fiduciária e stablecoin, as duas pontas de qualquer pagamento nesse trilho.
É onde mora o custo: a transação na blockchain é quase de graça, a conversão não.
Moedas exóticas
Pares de câmbio fora das moedas fortes, com pouca liquidez e custo alto no trilho bancário tradicional.
Do real para o peso argentino, por exemplo: é onde o sanduíche de stablecoin já é mais eficiente.
KYT
Know Your Transaction: o rastro da transação, que fica gravado de forma permanente no ledger da blockchain.
Foi o contraponto ao rastreio limitado do SWIFT na resposta sobre perímetro regulatório.
VASP
Prestador de serviços de ativos virtuais, categoria regulada que precisa se adequar às regras brasileiras.
O prazo de adequação citado no painel vence no fim de outubro.
Depósito bancário tokenizado
Enquadramento regulatório em discussão que trataria a stablecoin como depósito de banco, restringindo a atividade a quem tem licença bancária.
Foi apontado como o tema central da regulação brasileira de stablecoins neste momento.
Marcos citados
Semana anteriorResolução cria trava de 24 horas para transações com stablecoin destinadas ao exterior, com exceções para alguns fluxos.
No dia do painelProjeto de lei sobre stablecoins em discussão no Congresso.
Fim de outubroVence o prazo de adequação dos VASPs à regulação brasileira.
Outubro a dezembroJanela citada para a saída do Clarity Act nos Estados Unidos.
Citados na sessãoBLOXtrade·Bloquo·RedotPay·Tangem·Visa·Banco Central·DREX·SWIFT·B3·Binance·Wise·Remitly·Tether·Pix·Genius Act·Clarity Act·Blockchain.RIO