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GOV Stage

13/08 · 11h30–12h15Regulation Rocks - FENASBAC45 min de sessãoresumo em 6 min

A Convergência: Como o Brasil construiu o ecossistema financeiro mais avançado do mundo

O superlativo do título não sobreviveu à primeira resposta, e a sessão virou um inventário do que ainda falta.

Rodrigo HenriquesMarina CopolaALESSANDRO OCTAVIANI

O essencial

Contexto

Conversa da trilha Regulation Rocks, da Fenasbac, no GOV Stage, com Rodrigo Henriques na moderação e Marina Copola (CVM) e Alessandro Octaviani (Susep) na mesa. A abertura pediu os marcos que trouxeram o sistema financeiro brasileiro até aqui. O superlativo do título caiu já na primeira resposta — em alguns aspectos o país ainda está longe dele — e o resto da hora foi sobre o que falta: normas, funções e recursos.

A sessão em detalhe

Abertura

O título do painel foi contestado na abertura

A chamada prometia contar como o Brasil construiu o ecossistema financeiro mais avançado do mundo. Logo na primeira resposta o superlativo foi recuado: o que existe é um argumento muito bom para dizer que o sistema tem bases, e que essas bases não começaram ontem. A segunda resposta foi na mesma direção — por alguns aspectos é isso mesmo, por outros o país ainda está longe disso.

Duas cadeiras de regulador, uma de anfitrião

Marina Copola é diretora da CVM, onde o colegiado olha todos os assuntos e ela não fica numa diretoria específica. Octaviani é superintendente da Susep: seguros, previdência, resseguro.

Título de painel é feito pelo impacto

Ficou dito no palco que os títulos são criados pelo impacto, para as pessoas aparecerem — e que, ainda assim, são as duas coisas ao mesmo tempo.

O que ainda falta para o superlativo valer

Os pedaços que faltam foram nomeados: o preço do dinheiro e para onde esse dinheiro é canalizado, isto é, que atividades econômicas ele irriga e quanta complexidade cria.

O relógio

De Bretton Woods a 2008, sem pular etapa

A resposta à pergunta sobre marcos foi uma caminhada de oitenta anos. O acordo do pós-guerra fixou instituições, acordos e padrões pelos quais os sistemas financeiros nacionais deveriam se organizar; a quebra do padrão ouro e a criação dos mercados de câmbio entre países, no início dos anos 70, esgarçaram esse pacto e abriram a fase em que a inovação passou a desafiar os reguladores e os Estados nacionais.

Nos anos 80, o BIS deu nome à inovação financeira

A primeira vez que se falou oficialmente em inovação financeira foi na década de 80, por uma iniciativa do BIS, com ampla pesquisa e relatório — e o Brasil estava mergulhado na hiperinflação.

A hiperinflação foi a escola do sistema daqui

Reguladores e legislativo tiveram de equacionar ao mesmo tempo derivativos, securitização e uma economia sem moeda estável. A esse retrato somou-se um mercado bancário hipercapacitado, atrás das melhores soluções tecnológicas.

45 minutos lá fora para o que a TED resolvia aqui

Contou-se na mesa que, fora do Brasil, receber exigiu trem, envelope na mão e a assinatura de um gerente naquele local específico — algo que aqui se resolveria em 10 ou 15 minutos.

A tese

Inovação agnóstica, salvaguarda preservada

A pergunta grande é segurar sem travar

Na leitura da CVM, a onda atual é semelhante às dos anos 70 e 80: manter a estabilidade e a segurança de um sistema construído com muito cuidado, sem interferir no avanço da inovação.

Agnóstica quanto à tecnologia, firme na proteção

A fórmula que ficou na mesa: tratar a inovação de maneira agnóstica, mas preservar as salvaguardas quando elas forem úteis — reconhecendo que algumas podem não ser.

Nenhuma proteção foi construída do zero

O termo salvaguarda entrou na discussão: a relação de proteção entre a instituição e o cliente tem motivos históricos, e é nos momentos de grande troca tecnológica que é preciso entender o que produziu esse desenho.

A ruptura

A globalização não apagou o Estado nacional

A mesa tinha posto em circulação a imagem de DLT e blockchain como dissolução da geografia: onde você estiver, não importa quem você seja, você acessa. A força da imagem foi aceita e atacada por dois eixos — o empírico, porque os fatos não a confirmam, e o ideológico, onde a eficácia dela é impressionante.

A economia mais pujante nega a lei da fluidez

Chegar à China anunciando que a globalização acabou com o Estado nacional simplesmente não acontece: é o maior caso de crescimento da história do capitalismo, e o Estado está lá.

Regular é introduzir resistência ao fluxo

O bom desenho regulatório introduz resiliência e resistências a esse fluxo imenso e a essa invisibilidade — isso faz parte da boa organização de uma economia política.

Você não vai lá e fala: chegou aqui a globalização, então não tem mais Estado Nacional e eu faço o que eu quero... Não acontece. Tão simples quanto isso.

Definição

Regular a função, não o crachá do participante

Perguntado quais participantes fazem sentido manter num novo desenho, o painel trocou a pergunta: a discussão não é de participantes, é de funções. Diante de uma tecnologia que dissolve os limites entre um participante e outro, não dá para olhar o que ele diz que faz — é preciso olhar a razão de ele existir. Entrou na conversa o piloto da Anbima: uma rede em blockchain para validar uma debênture com contratos inteligentes.

Custódia, depósito, escrituração: por que existem?

O exercício proposto é listar os prestadores de serviço, perguntar que serviço cada um presta e em que medida a tecnologia supre aquilo de maneira igual ou melhor, sem que a razão de ser desapareça.

Ninguém acorda querendo criar custo de transação

A frase virou o gancho da resposta seguinte. As figuras existem porque cumprem uma função — inclusive separar o que precisa ficar separado por conflito de interesse.

A aposta no carro roubado é seguro com outro nome

O exemplo do prediction market em DeFi caiu na mesa: recebo o valor de tabela se o carro for roubado em 12 meses, pago 500 reais se não for. Mas isso é seguro, veio a resposta.

Se eu acho que nós estamos aqui olhando para o mercado de capitais totalmente prontos para incorporar essa tecnologia, do ponto de vista das normas? Acho que não.

Os números

Os trilhões parados esperando virar garantia

A pergunta sobre o que a tecnologia deveria de fato resolver levou a um diagnóstico antigo e caro do crédito brasileiro: o problema da garantia. A resposta encadeou o que já foi aprovado, o que ainda está sendo organizado — o próprio Banco Central fala em trilhões agregados quando a duplicata escritural estiver de pé nos planos tecnológico, institucional e jurídico — e quanto isso somaria junto.

Previdência como garantia de crédito

Uma norma conjunta com o Conselho Monetário Nacional abriu a previdência como garantia. São 2 trilhões prestes a adentrar a economia do crédito, do lado da oferta.

Somando os otimismos, mais de 30 trilhões

Crédito, previdência e a turma dos imóveis entraram na conta feita em voz alta no palco: mais de 30 trilhões de potencial, destravados por soluções técnicas e institucionais ao mesmo tempo.

A última pernada é o app funcionar direito

De nada adianta a arquitetura se a ponta não for agradável de ver e não der trabalho: é a gerente do banco perguntando se você tem PGBL e VGBL antes de financiar o apartamento.

O que trava

O que falta não é teoria: é gente e orçamento

Na pergunta final sobre desafios, as duas cadeiras convergiram. Para a CVM, o desafio teórico, jurídico e econômico já está introjetado; o que falta é recurso. Para a Susep, além de recursos tecnológicos e humanos, entram as reformas institucionais — tema que um secretário de reforma econômica da Fazenda vem debatendo, inclusive na imprensa, sobre como repensar o desenho dos próprios reguladores.

Recurso vira tempo, e tempo vira norma

Pessoas e orçamento se traduzem na capacidade de os reguladores se debruçarem sobre os temas com a profundidade que eles demandam e entregar solução normativa e de sistema.

A geopolítica ficou mais complexa que os modelos

As tensões já estavam todas ali para quem tinha olhos de ver; hoje estão na cara. O trabalho é incorporar essa complexidade aos modelos, não fingir que ela não existe.

Fortalecer quem já existe antes de redesenhar

A sessão fechou no mesmo ponto: qualquer desenho novo parte do princípio de que essas instituições estão fortalecidas, sob risco de desenhar algo que também não vai funcionar.

A gente não se confunde com o regulador. Eu vim com uma roupa para não confundir mesmo, pra ninguém achar que é o Banco Central que está sentado aqui.

O que ficou

Assentado

  • A CVM propôs tratar a inovação de maneira agnóstica: o que se preserva é a salvaguarda, quando ela for útil.
  • Ficou assentado que a pergunta certa não é qual participante fica, e sim que função ele cumpre e por quê.
  • A imagem de que a globalização financeira dissolveu o Estado nacional foi recusada na mesa.
  • O pedido foi o mesmo dos dois lados da mesa: recursos, pessoas e orçamento para os reguladores que já existem.

Em aberto

  • Pela CVM, as normas do mercado de capitais ainda não estão prontas para essa tecnologia.
  • Quais figuras — custódia, depósito, escrituração — a tecnologia substitui sem que a razão de ser desapareça.
  • Os 2 trilhões de previdência em garantia dependem, nas palavras do palco, de o app funcionar direito.
  • Ninguém deu prazo para adaptar as normas nem disse qual mudança regulatória viria primeiro.

Termos citados

Salvaguarda
Proteção construída na relação entre a instituição financeira e o cliente, herdada de crises anteriores.
Virou o critério da mesa: preservá-la quando ela for útil, sem travar a inovação.
BIS
Banco de compensações internacionais, foro dos bancos centrais para padrões e pesquisa.
Uma iniciativa dele, nos anos 80, oficializou o termo inovação financeira.
Regulação por função
Abordagem que classifica o participante pela razão de existir e pelo serviço prestado, não pelo rótulo.
Foi apresentada na mesa como o primeiro nível da resposta regulatória.
Duplicata escritural
Versão eletrônica e registrada da duplicata, título de crédito ligado a uma venda a prazo.
Citada como capaz de agregar trilhões quando estiver organizada técnica e juridicamente.
Prediction market
Mercado em que se aposta na ocorrência de um evento, com pagamento condicionado ao resultado.
O exemplo do carro roubado em 12 meses expôs que, na função, aquilo é seguro.
CVM
Comissão de Valores Mobiliários, reguladora do mercado de capitais, decidida em colegiado.
Marina Copola é diretora e, no colegiado, olha todos os assuntos.
Susep
Superintendência de Seguros Privados, que supervisiona seguros, resseguro e previdência aberta.
Alessandro Octaviani é o superintendente e ocupou essa cadeira na mesa.
Fenasbac
Entidade ligada aos servidores do Banco Central, anfitriã da trilha Regulation Rocks.
Na abertura, ficou registrado que ela não se confunde com o regulador.
Marcos citados
  1. Década de 40Bretton Woods fixa instituições e padrões pelos quais os sistemas financeiros nacionais se organizariam.
  2. Início dos 70A quebra do padrão ouro e a criação dos mercados de câmbio entre países esgarçam o pacto do pós-guerra.
  3. 1974O choque do petróleo entra na conta da virada que passou a desafiar reguladores e Estados nacionais.
  4. Década de 80Uma iniciativa do BIS, com pesquisa e relatório, fala oficialmente em inovação financeira pela primeira vez.
  5. Anos 2000Reforma do sistema de pagamentos e leis que redistribuem competências entre CVM e Banco Central.
  6. 2008A crise financeira encontra o Brasil com bases já construídas e testadas nas duas décadas anteriores.

Citados na sessãoCVM·Susep·Fenasbac·Banco Central·Conselho Monetário Nacional·Copom·Bretton Woods·BIS·Anbima·China·Regulation Rocks·Blockchain.RIO

TemasRegulação·Mercado de capitais·Seguros e previdência·Sistema financeiro·Tokenização

Quem falou

A seguir neste palco

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

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