12/08 · 11h45–12h2540 min de sessãoresumo em 8 min
AMM sob supervisão: de risco a ferramenta de banco central
Sem o convidado do BIS, o painel virou conversa entre supervisor e banco: o AMM ainda não tem a liquidez, mas já pode virar instrumento de política.
3trilhos de moeda digital: CBDC, depósito tokenizado e stablecoincitado no painel
2023desde quando o cliente final tem cripto no app de um banco brasileirodado apresentado na sessão
2casos de uso levados ao piloto do Drexcitado no painel
O essencial
A liquidez ainda mora na exchange centralizada
Os mecanismos automatizados só são acionados em casos extremos. A grande liquidez está nas exchanges, no mundo centralizado — o paradoxo de um mercado que caminha para o DeFi e segue confiando em estrutura centralizada.
O AMM está deixando de ser lido como risco
A supervisão bancária mundial tratou mercado tokenizado e DeFi como risco, e isso está mudando: o mesmo mecanismo pode virar ferramenta de gerenciamento de liquidez, com aplicação apontada até em política monetária.
Choque em mercado tokenizado não espera o pregão abrir
O cenário antigo dava um delay: fechava um mercado no Brasil, abria outro em Hong Kong ou nos Estados Unidos, e a crise tinha tempo de se acomodar. Com mercados conectados, o choque é instantâneo.
Pedir prova de reserva é fácil; verificar cobra caro
Exigir que a empresa assine uma prova de que aquelas public keys são dela é possível. Processar cada assinatura de curva elíptica num universo gigantesco de informações é outro problema, e ele é de servidor.
Na blockchain o ativo anda no mesmo trilho da moeda
É a diferença de fundo em relação ao Pix, onde só se vê o dinheiro indo de um lado para o outro. Colocar ativo e moeda no mesmo nível abre caminho para usar ativo como colateral e gerar formas novas de crédito.
O piloto só vira produção quando o caso de uso justificar a troca
O Drex rendeu dois casos concretos — commodities brasileiras tokenizadas e vendidas para Hong Kong, com os dois bancos centrais como camada de liquidação, e debêntures com crédito tokenizado — e o piloto da Anbima testa crédito privado e debêntures em dois consórcios. A infraestrutura é totalmente diferente, e o que ainda falta provar é qual processo melhora a ponto de justificá-la.
Contexto
Painel do Trends Stage anunciado sobre o projeto Tamga, do BIS, e o papel dos automated market makers na conformidade e na supervisão de ativos tokenizados. A participação remota do BIS não entrou: a falha de áudio consumiu os primeiros minutos e ficou apenas o registro de que o Tamga é um projeto público e detalhado. O que sobrou foi mais direto do que o roteiro — a mesa se reorganizou em torno de duas cadeiras, a de quem supervisiona e a de quem opera, respondendo às mesmas perguntas sobre onde a liquidez realmente está e o que já foi testado nos trilhos tokenizados brasileiros.
A sessão em detalhe
Abertura
A conexão que não entrou
O painel foi anunciado com quatro nomes e começou com um problema de áudio. A participação remota do BIS, que abriria a sessão apresentando o projeto Tamga, ficou presa numa falha que a produção tentou contornar por vários minutos, inclusive com tentativa de conexão por celular no meio do palco. Não deu. Ficou o registro de que o Tamga é um projeto público e cheio de detalhes disponíveis, e o painel se reorganizou em torno das duas cadeiras que estavam ali: a de quem supervisiona e a de quem opera.
O que restou do Tamga
O projeto que dava nome ao painel não chegou a ser apresentado. Ficou dito, no lugar da apresentação, que ele é público e tem muitos detalhes — o convite implícito foi ler a documentação.
Supervisor e mercado nas duas cadeiras
Sem a apresentação do BIS, a sessão virou o que o roteiro não previa: a coordenação de supervisão de ativos virtuais do Banco Central e a área de digital assets do Banco Inter respondendo às mesmas perguntas de ângulos opostos.
A gente está com um pequeno problema técnico por causa do áudio. A gente vai resolver esse problema.
O que trava
O que trava o AMM sob a ótica de quem supervisiona
A primeira pergunta pediu o inventário das fragilidades do modelo de automated market maker num mercado tradicional sob supervisão, e a resposta veio da pesquisa acumulada — inclusive do Projeto Mariana, do BIS, que também tratou de AMM. A lista é curta e dura: quem entra com capital na piscina de liquidez não tem garantia de sair com o mesmo capital, o preço é diferente para cada usuário que aciona a piscina, e há ataque sanduíche e grandes baleias movimentando preços de forma irreversível. A dificuldade central apontada não é a matemática em si, é a distância entre o que se espera de um modelo matemático verificado e o comportamento real desses algoritmos.
Entrar na piscina não garante sair com o mesmo capital
É o primeiro problema listado, e é do lado do investidor: o capital aportado pode não voltar inteiro. Do ponto de vista regulatório e de supervisão, isso não é uma questão de eficiência, é de proteção.
O preço muda conforme quem aciona a piscina
Cada usuário que aciona a piscina de liquidez encontra um preço diferente. Some-se a isso o ataque sanduíche e as grandes baleias entrando junto, que movimentam preços de forma irreversível.
Algoritmo nascido no cripto não entra pronto no mercado tradicional
Os algoritmos existentes carregam características próprias do mercado cripto, e é isso que dificulta a aplicação dentro de um sistema tradicional sob supervisão. O caminho de pesquisa apontado foi a teoria dos jogos, com investidores e usuários barganhando valor num ambiente descentralizado.
Os investidores entram com capital e não é garantido que saiam da piscina com o mesmo capital que eles entraram.
Definição
Três trilhos de moeda digital sobre a mesma tecnologia
Antes de discutir prioridade entre depósito tokenizado e stablecoin, a sessão parou para organizar o vocabulário — e a organização vale mais do que a escolha. São três trilhos, não dois: as CBDCs, moedas digitais emitidas por bancos centrais; os depósitos tokenizados, emitidos por bancos e submetidos à mesma regulação do depósito à vista; e as stablecoins, emitidas por empresas privadas. No fim das contas todos usam a mesma tecnologia. O que muda são os emissores, a regulação e os casos de uso.
Qual trilho priorizar não tem resposta única
A posição apresentada não foi escolher um: são casos de uso diferentes, com regulações diferentes, explorados em frentes paralelas. Priorizar um trilho seria abrir mão dos casos que só os outros dois atendem.
Cripto no cliente final desde 2023
Foi trazido ao palco o caso de um banco que oferece cripto ao cliente final desde 2023 — apresentado como o primeiro a fazê-lo — e que a partir dali foi aprofundando a tecnologia: do dinheiro digital emitido no piloto do Drex ao depósito tokenizado que está em estudo agora.
No final das contas, todos usam a mesma tecnologia. O que muda são os casos de uso e os emissores.
A ruptura
A liquidez não está no AMM, está na exchange centralizada
A pergunta era onde está a grande liquidez hoje — nos AMMs ou fora deles — e a resposta desmontou a premissa do painel. Os mecanismos automatizados só são acionados em casos extremos; a liquidez está nas exchanges, no mundo centralizado das exchanges. O paradoxo foi nomeado no palco: o mercado caminha para a blockchain e para o DeFi, quer um mecanismo automatizado para fazer o swap, e segue confiando em estrutura centralizada para isso.
O que o DeFi entrega é verificação
No DeFi dá para ver a transação ocorrendo bloco a bloco: onde há liquidez, ela está registrada e é observável. Foi apresentado como o lado bom desse mundo, e como a razão para o supervisor querer olhar para lá.
Custódia é fácil de olhar; transação não
Olhar posição de custódia em carteiras é relativamente simples. Quando se entra no mundo das transações — roteamento, situações de paridade de moeda — a complexidade muda de patamar, e é justamente esse dado que o Banco Central quer capturar agora.
Olha que controvérsia, que paradoxo: a gente está indo para o mundo da blockchain, para o mundo DeFi, e continua confiando em mecanismos centralizados.
Em produção
O Drex virou laboratório e o piloto da Anbima é o teste seguinte
Do lado de quem opera, a tokenização já saiu do slide. O Drex foi tratado como laboratório e rendeu dois casos concretos: trade finance, com commodities brasileiras tokenizadas e vendidas para Hong Kong, tendo o Banco Central do Brasil e o Banco Central de Hong Kong como camada de liquidação; e debêntures com crédito tokenizado. A vantagem estrutural apontada não é a moeda digital em si — é que na blockchain o ativo trafega nos mesmos trilhos da moeda, diferente do Pix, onde só se vê o dinheiro indo de um lado para o outro.
Ativo e moeda no mesmo nível
Seja moeda de banco central, stablecoin ou depósito tokenizado, tudo pode ser colocado no mesmo nível do ativo e operado junto. É o que abre caminho para usar ativo como colateral de crédito e para gerar formas novas de crédito.
A Anbima montando a blockchain dos títulos privados
O piloto da Anbima cria uma blockchain específica para emitir produtos de investimento e integrar os diversos bancos. O Inter participa de dois consórcios diferentes, um deles com o banco BV, testando crédito privado e debêntures.
O que falta para sair do piloto
A CVM começou a discutir a regulação de títulos, como o Banco Central já fez para criptomoedas e stablecoins. O que ainda precisa ser provado é qual processo melhora e qual produto se beneficia a ponto de justificar uma infraestrutura totalmente diferente.
É uma infraestrutura totalmente diferente, que traz grandes vantagens, mas o mais importante é achar quais processos vão ser melhorados.
A tese
O AMM deixa de ser risco e vira ferramenta de banco central
A virada de prisma foi a tese mais forte da sessão. A supervisão bancária e os bancos centrais do mundo trataram o mercado tokenizado e o DeFi como risco, e isso está mudando: o mesmo mecanismo automatizado que preocupa pode virar ferramenta poderosa de gerenciamento de liquidez. O gatilho do argumento é a conexão entre mercados — não existe mais o intervalo em que um mercado fecha no Brasil e outro abre em Hong Kong ou nos Estados Unidos, com um delay para a crise se acomodar. O choque é instantâneo.
Sem intervalo, não há tempo de acomodar choque
O cenário antigo dava um delay entre o fechamento de um mercado e a abertura de outro, e era nesse intervalo que uma crise se acomodava. Com mercados tokenizados cada vez mais conectados, esse tempo desapareceu e o gerenciamento precisa ser automático.
Algoritmos que proveem e enxugam liquidez
A pesquisa de AMM aponta para algoritmos eficientes capazes de atenuar crises, prover liquidez no momento certo e enxugá-la no momento adequado — com aplicação apontada até em política monetária.
Trocar o viés negativo pelo positivo
O pedido foi de mudança de prisma: parar de olhar o mecanismo só pelo risco e perguntar como ele pode auxiliar quem administra liquidez e conduz política monetária.
A gente tem que enxergar sob outro prisma e não mais olhar isso do ponto de vista de viés negativo, mas do ponto de vista de viés positivo.
O recado
Pedir a prova de reserva é fácil; verificar cobra caro
Já perto do fecho veio a pergunta sobre prova de reserva e prova de existência, e a resposta é o retrato honesto do custo da supervisão em escala. Do ponto de vista da supervisão, o que se quer é certeza sobre o passivo que uma empresa mantém na blockchain com seus clientes — é disso que dependem a solidez do sistema financeiro nacional e a proteção da população. Pedir que a empresa assine um hash provando que aquelas public keys são dela é tecnicamente possível. Processar cada uma dessas assinaturas de curva elíptica num universo gigantesco de informações é outro problema: cobra caro dos servidores.
A prova existe; o gargalo é computacional
A assinatura feita com a chave privada prova a posse da chave pública — a criptografia resolve. O que não escala é processar essa verificação para todo o universo de informações que a supervisão precisaria olhar.
Regulação, supervisão e tecnologia são o mesmo problema
O fecho dessa resposta foi que os três estão interrelacionados: não dá para desenhar regra sem contar quanto ela custa de infraestrutura, e supervisionar mercado tokenizado exige investimento tecnológico.
Tudo está interrelacionado e exige também investimento tecnológico.
O que ficou
Assentado
A grande liquidez está nas exchanges centralizadas, não nos AMMs, que só são acionados em casos extremos.
São três trilhos de moeda digital — CBDC, depósito tokenizado e stablecoin — sobre a mesma tecnologia; o que muda são emissor, regulação e caso de uso.
O Drex rendeu dois casos concretos: trade finance de commodities com Hong Kong, com os dois bancos centrais como camada de liquidação, e debêntures com crédito tokenizado.
A CVM começou a discutir a regulação de títulos no Brasil, como o Banco Central já fez para criptomoedas e stablecoins.
O projeto Tamga não chegou a ser apresentado: a falha de áudio impediu a participação remota do BIS, e ficou só o registro de que é um projeto público.
Em aberto
Que desenho de AMM seria aceitável num mercado tradicional sob supervisão ficou sem resposta — a pesquisa com teoria dos jogos está em andamento.
Não foi dito como resolver o custo computacional de verificar assinaturas de curva elíptica em escala de supervisão.
A escolha entre priorizar depósito tokenizado ou stablecoin não foi feita: os dois seguem como frentes paralelas, com regulações e casos de uso diferentes.
A prova de que os casos de uso justificam a nova infraestrutura é o que falta para os pilotos virarem produção, e ela não foi apresentada na sessão.
Termos citados
AMM (automated market maker)
Mecanismo automatizado que executa a troca de ativos contra uma piscina de liquidez, sem livro de ofertas e sem contraparte humana.
Foi o objeto do painel, examinado tanto pelas fragilidades quanto pelo uso possível por bancos centrais.
Piscina de liquidez
Reserva de ativos depositada por investidores contra a qual o mecanismo automatizado executa as trocas.
Quem entra com capital não tem garantia de sair com o mesmo capital.
Ataque sanduíche
Manobra em que a ordem de um usuário é cercada por outras duas, capturando a variação de preço que ela mesma provoca.
Citado entre as fragilidades do modelo, ao lado das grandes baleias que movimentam preços de forma irreversível.
Depósito tokenizado
Moeda digital emitida por banco, submetida à mesma regulação do depósito à vista.
É o trilho do meio entre a CBDC, emitida por banco central, e a stablecoin, emitida por empresa privada.
Prova de reserva
Demonstração de que os ativos declarados existem e pertencem a quem diz mantê-los, feita pela assinatura das chaves com a chave privada.
Pedir é possível; verificar em escala cobra caro dos servidores da supervisão.
Drex
Projeto de moeda digital de banco central do Brasil, cujo piloto foi usado pelo mercado para testar tokenização e integração.
Serviu de laboratório para o trade finance de commodities com Hong Kong e para as debêntures com crédito tokenizado.
Citados na sessãoBIS·Banco Central do Brasil·Banco Inter·Anbima·CVM·Banco BV·Drex·Projeto Mariana·Projeto Tamga·Banco Central de Hong Kong·Pix