12/08 · 10h00–10h3030 min de sessãoresumo em 8 min
A abertura: a lição suíça e o relógio de outubro
A mesa de abertura pôs lado a lado a Suíça, que desde 2014 abriga o Ethereum, e o Brasil, que decide seu mercado até outubro.
20professores de faculdades diferentes antes de existir o centroUniversidade de Zurique
80estudantes do mundo todo por ano na escola de verãoUZH Blockchain Center
1 mêspara encerrar operações de quem ficar sem licençaBanco Central · licenciamento de VASPs
100 diaso plano de gestão que criou o grupo de trabalho de tokenizaçãoCVM · plano de gestão
O essencial
A regra veio antes do ecossistema, não depois
A explicação apresentada para a Suíça não foi cultura nem dinheiro: foi ter entendido cedo que uma regulação que facilita a inovação é decisiva para setores econômicos inteiros. Já em 2014 a fundação do Ethereum se estabeleceu no país.
O interesse por blockchain não nasceu na computação
Ele apareceu de ângulos totalmente diferentes — Filosofia, Economia e Negócios, Finanças e Ciência da Computação — e só virou centro quando já eram cerca de 20 professores espalhados por essas faculdades.
A pesquisa olha o sistema, não só o protocolo
As linhas citadas vão do fluxo de ativos em nível macroeconômico à forense on-chain, passando por protocolos de consenso, finanças descentralizadas, manipulação de mercado e rug pulls.
A escola de verão saiu da USP e virou presencial em Zurique
Ela nasceu na Universidade de São Paulo e, depois da pandemia, passou a acontecer dentro da universidade suíça desde 2022: 80 estudantes do mundo todo por ano e 60 professores dando aula.
Outubro é o marco que vai revelar o mercado brasileiro
Quem atua no escopo de prestador de serviços de ativos virtuais precisa pedir licença ao Banco Central; quem ficar de fora tem um mês para encerrar. É entre o fim de outubro e novembro que sai o raio-x do mercado.
A disputa não é sobre haver regra, é sobre mirar o alvo certo
Proteção ao cliente, prevenção à lavagem e antifraude não estão em questão. O que ficou apontado é a distância entre a regra escrita e o perfil real em que o ilícito acontece — e o crime, lembrou-se, já existia antes deste mercado.
Contexto
Cerimônia que abriu oficialmente o Blockchain.RIO 2026 no Main Stage, conduzida pela jornalista Carla Fiorito e pelo CEO do evento, Francisco Carvalho, com uma mesa oficial que juntou regulação, mercado e academia: Juan Carlos Reyes (CNAD, El Salvador), Patrícia Tudisco (Banco Central del Uruguay), Rodrigo Henriques (Fenasbac), Claudio J. Tessone (Universidade de Zurique) e Julia Rosin (ABcripto e Coinbase). Depois das boas-vindas, da grade paralela e do agradecimento aos patrocinadores — com a FAPERJ à frente —, o tempo curto empurrou a mesa para dois assuntos. Primeiro, por que a Suíça virou berço cripto e o que se pesquisa em Zurique; depois, o que acontece no Brasil quando vencer o prazo de licenciamento dos prestadores de serviços de ativos virtuais.
A sessão em detalhe
Abertura
Dois dias, e a grade não cabe no palco principal
A abertura apresentou o Blockchain.RIO 2026 como o maior evento de tecnologia e inovação da América Latina e prometeu dois dias intensos: fóruns estratégicos, discussões executivas, painéis e experiências imersivas, com lideranças do Brasil e do mundo debatendo infraestrutura financeira, regulação, tokenização, stablecoins, inteligência artificial, Web3 e as tecnologias que estão redesenhando a economia. Fora do Main Stage, foi lida a grade paralela — Stablecoin Brasil, Regulation Rocks by Fenasbac, LFDT (Linux Foundation Decentralized Trust), Criptorama, Blockchain Forum Latam, AI Builders, Blockchain Academia, Crypto Summit, sala SEBRAE e sala FAPERJ, entre outros espaços dedicados a educação, cultura digital e novos negócios.
A FAPERJ à frente da lista de patrocinadores
O agradecimento começou pela fundação de amparo à pesquisa do estado do Rio de Janeiro e seguiu por Binance, BlockBR, Galton, Titanium, Cainvest, CertiK e BingX, com participação de Sesc e Senac e apoio do Sebrae.
A tradução simultânea também está aprendendo
Foi avisado do palco que as palestras têm tradução simultânea feita por inteligência artificial, com um pedido explícito de paciência à plateia — a máquina ainda está aprendendo, e às vezes isso aparece.
Regulador, mercado e academia na mesma mesa
A mesa oficial chamada ao palco reuniu o CEO do evento, a presidência da CNAD de El Salvador, a intendência de Supervisão Financeira do Banco Central do Uruguai, a diretoria de Inovação e Estratégia da Fenasbac, a Universidade de Zurique e a ABcripto com a Coinbase. A limitação de horário foi lembrada antes da primeira fala.
A tese
A Suíça entendeu cedo que a regra podia facilitar
O primeiro assunto da mesa foi por que tantos projetos cripto nasceram — ou pelo menos ficaram de pé — na Suíça. A resposta apresentada não foi cultura nem dinheiro: foi regulação. O país entendeu rápido, como já havia entendido coisas parecidas em outros períodos da história, que uma regulação que facilita a inovação é especialmente importante para os setores econômicos. O caso citado é o mais conhecido: já em 2014, a fundação do Ethereum se estabeleceu ali e o desenvolvimento continuou no país, no que foi descrito como o primeiro ecossistema a se firmar por lá.
Não parou no Ethereum
A mesma regulação acolhedora recebeu outros projetos cripto depois, e o que se formou foi um conjunto de ecossistemas estabelecidos e crescidos na Suíça — não uma sede solitária de um projeto famoso.
A ordem dos fatores importa
A sequência apresentada foi essa: primeiro a decisão regulatória, depois a chegada dos projetos e, só então, o interesse acadêmico e o mercado que se organizou em volta deles.
Uma regulação que facilita a inovação é algo especialmente importante para os setores econômicos do país.
Em produção
Vinte professores antes de existir um centro
No sistema acadêmico suíço, o interesse por blockchain apareceu de ângulos totalmente diferentes: Filosofia, Economia e Negócios, Finanças e Ciência da Computação começaram a pesquisar o tema por conta própria. Quando já eram cerca de 20 professores espalhados por essas faculdades, o conjunto virou uma agenda com escala própria — eventos, cursos, diálogos e trabalho junto a reguladores — e depois o centro de blockchain da universidade, que passou a ter presidência a partir de 2020.
Rastrear o ativo e entender de onde ele veio
Uma das linhas é a forense on-chain: desenvolver ferramentas que permitam traçar o fluxo de ativos e entender sua origem. Ao lado dela ficam o fluxo de ativos em nível macroeconômico e o estudo de protocolos de consenso.
Do mecanismo econômico à propriedade macroscópica
A pergunta apontada como a mais interessante desses sistemas digitais descentralizados é como mecanismos econômicos desenhados no detalhe geram propriedades macroscópicas — em alguns casos, uma grande quantidade de ciclos especulativos; em outros, não necessariamente.
DeFi, manipulação de mercado e rug pulls
A agenda mais recente entrou nas finanças descentralizadas e na interação com plataformas registradas em blockchain, com estudo de processos de manipulação de mercado e de rug pulls, coisas que acontecem em muitos blocos e cadeias.
Oitenta alunos por ano, sessenta professores em sala
A escola de verão nasceu na Universidade de São Paulo e, depois da pandemia, passou a ser feita in situ na universidade suíça: desde 2022, recebe 80 estudantes do mundo todo por ano, com 60 professores dando aula.
O que trava
O regulador ainda olha o mercado de fora
A virada para o Brasil começou pela relação com o regulador, e o trabalho da associação foi descrito como um trabalho de tradução: mostrar como as operações funcionam de fato e como o mercado está se organizando, para chegar a um consenso sobre regras que sejam efetivas. O ponto de tensão apresentado não é a existência de regra, e sim a distância entre a regra escrita e o desenho real do mercado — uma visão ainda alheia, carregada de preconceitos sobre como esse mercado se organiza.
O crime é anterior a este mercado
O argumento usado foi esse: o crime já existia muito antes e vai continuar existindo, de outras formas. Regra genérica não impede o ilícito; o que precisa é acertar o perfil em que ele de fato acontece.
Inibir sem impedir o mercado de existir
A construção defendida é de instrumentos efetivos o suficiente para inibir esse tipo de ato e, ao mesmo tempo, permitir o desenvolvimento do mercado. O equilíbrio entre as duas coisas foi apresentado como a pergunta real.
Ninguém aqui acredita que não deva haver regras de proteção ao cliente, ao usuário, de PLD, de antifraude. A questão é como a gente equilibra essas regras.
O relógio
Até outubro, ou um mês para encerrar
O marco concreto do ano tem data. Até outubro, quem atua com criptoativos e cai no escopo do que seria um prestador de serviços de ativos virtuais precisa pedir licença ao Banco Central. Houve um pedido de prorrogação, sem garantia de que será aceito. Quem ficar de fora tem um mês para encerrar as operações. Nem todo modelo exige licença de VASP, mas esse é o principal marco do arcabouço — e é entre o fim de outubro e novembro que aparece o raio-x de como o mercado cripto vai se organizar no Brasil.
A expectativa de pedidos caiu
Algumas empresas já encerraram operações, e a expectativa de pedidos de licença hoje é menor do que era no ano passado, antes de as regras saírem. O número real, porém, só existe depois do prazo.
O aperto foi lido como temporário
A leitura apresentada é de que, à medida que o Banco Central tiver mais informação e um entendimento mais aprofundado das atividades realmente executadas, vem a flexibilização — por uma questão de conforto do próprio regulador com o que ele conhece.
A partir do final de outubro ali para novembro, a gente vai conseguir ter, de fato, um raio-x de como o mercado cripto vai se organizar no Brasil.
O anúncio
Na CVM, um plano de 100 dias e um grupo de trabalho
O Banco Central não é o único regulador em cena. Do lado da CVM, o foco da gestão está em buscar regras para o processo de tokenização, e o plano de 100 dias da presidência criou um grupo de trabalho para testar e escrever regulação em conjunto. Os itens citados são três: como garantir segurança dentro da rede blockchain, como assegurar segregação patrimonial e como supervisionar quem presta serviço nesse mercado. O trabalho de escuta da autarquia foi descrito como significativo, com metas definidas para o ano.
Este é o ano de escrever, não de aplicar
A leitura da mesa é que 2026 é o ano em que se cria o que o mercado brasileiro vai ser no futuro. É por isso que o momento foi chamado de crucial: ele determina como o mercado se comporta nos próximos anos.
Regra que deixe o participante menor entrar
O objetivo declarado para depois de outubro é construir regras que realmente façam sentido e que permitam que participantes menores entrem no ecossistema e tenham a possibilidade de crescer dentro dele.
O recado
Ano eleitoral trava o Congresso, mas a pauta não some
A regulação discutida na associação não para no Banco Central e na CVM: embarca também o Congresso Nacional. E ano de eleição, por si só, já dificulta bastante o avanço de algumas discussões. Ainda assim, ficaram nomeadas as frentes que precisam ser construídas — segregação patrimonial, o projeto de stablecoins e a possibilidade de criar uma reserva soberana em ativos virtuais. Para não chegar tarde a esse debate, a associação firmou parceria com o movimento Juntos por Cripto, que tem estande no evento e abre diálogo com candidatos à presidência, ao Senado e ao Congresso Nacional, pedindo que olhem de fato para a pauta.
Envolver-se com o Congresso deixou de ser tabu
Foi dito do palco que o setor às vezes esquece — ou carrega algum preconceito — na hora de se envolver com o Congresso. No fim das contas, porém, é ali que os novos marcos legais do mercado se decidem.
O copo, no fim, foi lido como meio cheio
O balanço da mesa foi otimista, e com a ressalva declarada de que esse otimismo costuma irritar parte do mercado: prazo apertado agora, mas um ano em que o desenho definitivo das regras começa a ser escrito.
Eu gosto sempre de ver o copo meio cheio, o pessoal fica meio bravo comigo, mas acho que é isso.
O que ficou
Assentado
Já em 2014 a fundação do Ethereum se estabeleceu na Suíça, e o desenvolvimento do projeto continuou no país.
O centro de blockchain da Universidade de Zurique nasceu de cerca de 20 professores de faculdades diferentes e pesquisa de forense on-chain a manipulação de mercado.
A escola de verão nasceu na Universidade de São Paulo e, desde 2022, acontece presencialmente em Zurique com 80 estudantes por ano e 60 professores em sala.
Até outubro, quem atua no escopo de prestador de serviços de ativos virtuais precisa pedir licença ao Banco Central; quem ficar de fora tem um mês para encerrar operações.
O plano de 100 dias da gestão da CVM criou um grupo de trabalho para escrever regras de tokenização, segurança na rede, segregação patrimonial e supervisão.
Em aberto
O pedido de prorrogação do prazo de outubro foi feito, mas não há garantia nenhuma de que será aceito.
Quantas empresas vão de fato pedir licença ninguém sabe: a expectativa citada é menor que a do ano passado, e o número só existe depois do prazo.
A flexibilização das regras depois de outubro é uma expectativa apresentada na mesa, não um compromisso assumido pelo regulador.
Em ano eleitoral, segregação patrimonial, projeto de stablecoins e reserva soberana em ativos virtuais seguem sem previsão de avanço no Congresso.
Três das cadeiras da mesa aparecem só na chamada ao palco: a captura acaba no meio da fala sobre o Congresso e não registra se elas chegaram a falar depois.
Termos citados
VASP
Prestador de serviços de ativos virtuais, figura definida pelo arcabouço brasileiro e sujeita a licença do Banco Central.
É o escopo que define quem precisa pedir licença até outubro.
PLD
Prevenção à lavagem de dinheiro: conjunto de obrigações de identificação, monitoramento e comunicação de operações suspeitas.
Citada como uma das regras que ninguém na mesa contesta.
Segregação patrimonial
Separação entre o patrimônio do cliente e o da empresa que guarda ou movimenta seus ativos.
Aparece duas vezes: no grupo de trabalho da CVM e na lista de pautas do Congresso.
Tokenização
Representação de ativos em rede blockchain, com registro e movimentação nativos dessa infraestrutura.
É o foco declarado da gestão atual da CVM e o motivo do grupo de trabalho.
Forense on-chain
Conjunto de ferramentas que permite traçar o fluxo de ativos em uma rede e entender a origem deles.
Uma das linhas de pesquisa do centro de blockchain de Zurique.
Rug pull
Golpe em que quem controla um projeto retira o valor depositado e abandona os investidores.
Estudado junto com manipulação de mercado nas plataformas registradas em blockchain.
Marcos citados
2014A fundação do Ethereum se estabelece na Suíça, o primeiro dos ecossistemas cripto que o país passa a abrigar.
2022Depois da pandemia, a escola de verão nascida na Universidade de São Paulo passa a acontecer presencialmente dentro da Universidade de Zurique.
OutubroPrazo para que quem atua como prestador de serviços de ativos virtuais peça licença ao Banco Central; quem ficar de fora tem um mês para encerrar operações.
Fim de outubro a novembroJanela em que aparece o raio-x de como o mercado cripto vai efetivamente se organizar no Brasil depois do licenciamento.
Citados na sessãoBlockchain.RIO·FAPERJ·Binance·BlockBR·Galton·Titanium·Cainvest·CertiK·BingX·Sesc·Senac·Sebrae·Linux Foundation Decentralized Trust·Universidade de Zurique·Universidade de São Paulo·Ethereum·ABcripto·Coinbase·Banco Central·CVM·Fenasbac·CNAD·Banco Central del Uruguay·Juntos por Cripto·Congresso Nacional