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Main Stage

12/08 · 11h25–12h0540 min de sessãoresumo em 9 min

Quatro jurisdições e a mesma pergunta: como supervisionar o que não tem fronteira

Brasil, El Salvador, Uruguai e Peru compararam suas réguas: o desacordo não foi sobre regular, foi sobre onde colocar a barra de entrada.

Juan Carlos ReyesNicole DyskantJoão AcciolyOmar GhurraPatrícia Tudisco

O essencial

Contexto

Painel bilíngue português-espanhol no Main Stage, transmitido ao vivo, com reguladores de quatro países em estágios muito diferentes de maturidade: a CVM brasileira com um grupo de trabalho de tokenização de 60 dias, El Salvador com o único ente regulador do mundo dedicado a ativos digitais, o Uruguai estreando o marco dos provedores de serviços de ativos virtuais e o Peru sem regulação específica, mas rodando um piloto de moeda digital de banco central. A conversa voltou duas vezes ao mesmo ponto: onde colocar a barra de entrada, e o que fazer quando o supervisionado não respeita fronteira.

A sessão em detalhe

Abertura

Sessenta dias para reescrever a régua da tokenização

A primeira pergunta foi para o assunto que a plateia brasileira queria ouvir: o grupo de trabalho de tokenização anunciado pela CVM poucas semanas antes, com um plano que cobre infraestrutura, custódia, liquidação e a adaptação da regulação a ativos emitidos e negociados em DLT — tudo em 60 dias. O prazo foi devolvido não como promessa de milagre, mas como escolha de método: se alguém sentasse para calcular friamente quanto tempo aquilo levaria, ninguém diria 60 dias.

O argumento é que não são 60 dias para fazer as coisas do zero. O tempo acumulado pelo regulador e por um mercado que está nisso há anos é o que permite fazer mais em menos tempo — e a interação do grupo de trabalho existe justamente para puxar esse acúmulo para dentro. A plateia também entrou na conta: um mercado interativo, que ajuda a CVM no trabalho, foi lido como parte do que torna o prazo defensável.

Levei vinte anos para conseguir fazer isso em uma semana

A história do parecerista que cobra caro foi a imagem escolhida para explicar o prazo: o que parece rápido é a ponta visível de uma experiência longa. É esse acúmulo que a CVM colocaria dentro dos 60 dias.

O que o grupo tem de entregar

Infraestrutura, custódia, liquidação e a adaptação das regras de ativos para que possam ser emitidos e negociados em registro distribuído. Escopo grande, prazo curto — foi assim que a pergunta chegou ao palco.

O prazo é a mãe da produtividade.

A ruptura

El Salvador criou um regulador à parte porque o ativo é código

A origem do caso salvadorenho não foi uma escolha de política regulatória, foi uma imposição prática: quando o Bitcoin foi legalizado em 2021, o país inteiro passou a ter de aprender a tecnologia a fundo — a comissão e todos os demais. A comparação usada foi a de quem é largado num lugar onde ninguém fala a sua língua: ou se aprende a língua, ou não se funciona. O desenho que saiu daí tem uma janela única de entrada, a porta da comissão, e até hoje El Salvador é o único país com um ente regulador dedicado a ativos digitais.

A opção declarada é ficar em mercados regulados, onde os padrões mundiais se aplicam e existe rastreabilidade do dinheiro — sem isso, ficou dito, os problemas são gigantescos. E a moeda tem dois lados, admitidos no mesmo fôlego: uma taxa de rejeição de 80% nas aplicações e, do outro lado, a reputação de ser o único regulador que fala a língua da indústria, o que atrai candidaturas do mundo inteiro, com bastantes empresas brasileiras entre elas.

Não podemos ser o regulador do mundo

O limite foi posto pelo próprio palco: a rejeição alta não é só uma questão de maturidade dos candidatos, é também a capacidade financeira e de supervisão internacional que ainda não existe para atender todo mundo.

O carro elétrico na oficina do mecânico tradicional

A analogia que organizou o painel inteiro: leve um carro elétrico ao mecânico de sempre e ele não vai saber o que fazer. É a diferença entre o instrumento financeiro tradicional e um ativo que, no fundo, é programação.

A maior emissora de stablecoin ficou lá

A mesa lembrou que a Tether, uma das maiores empresas de stablecoin do mundo, está estabelecida em El Salvador — apresentado como consequência de uma regulação feita para a tecnologia que se está regulando.

Mas é código. Se você não sabe usá-lo, não vai poder regular nem supervisionar ativos digitais.

O que trava

O Uruguai olha governança e risco cibernético antes de deixar operar

O Uruguai acabou de emitir a normativa que regulamenta os provedores de serviços de ativos virtuais, e a própria lei já mandava regulamentar e fiscalizar esse tipo de entidade. Foi feita a observação de que o legislador, quando aumenta o perímetro do regulador, diz no mesmo ato sobre o que ele tem autoridade: aqui, o foco definido foi proteção ao consumidor e prevenção à lavagem de ativos. Com esse enquadramento, o componente forte da norma virou o processo de autorização.

O risco tecnológico pesa mais aqui do que em outra entidade

A autorização examina a governança de quem quer se estabelecer e toda a parte de tecnologia da informação, segurança e risco cibernético — riscos apontados como potencialmente muito mais importantes nesse setor do que nas demais entidades financeiras.

O cliente tem de saber onde está o ativo dele

Do lado do consumidor, a exigência é de contratos claros sobre escopo e custos do serviço, e — para quem custodia ou administra — acesso permanente à informação de onde estão os ativos, com que custodiante e de que qualidade.

Regra de viagem e conheça seu cliente para todo tipo de transação

A pressão do GAFI foi apresentada como uma das razões de incorporar o setor ao perímetro. Entraram a regra de viagem para todo tipo de transação e muito foco no conhecimento do cliente e das suas operações.

É um processo de autorização, não um mero registro.

Os números

Três milhões de peruanos usam cripto sem regulação específica

No Peru não existe regulação própria de criptoativos além de temas ligados à lavagem de dinheiro, e ainda assim há adoção. Sem estatística oficial — consequência da própria ausência de regulação —, o retrato veio de fontes privadas: num país de 34 milhões de habitantes, cerca de 3 milhões são usuários ativos, entre 12% e 15% dos adultos; contando usuários totais, a estimativa sobe para algo entre 20% e 30% da população. A leitura apresentada foi cuidadosa: não é adoção massiva, mas também não é um número pequeno.

Aqui a stablecoin não é hedge, é remessa

Em países de inflação alta como Venezuela e Argentina, a stablecoin serve de cobertura. No Peru, com inflação média em torno de 3% em 25 anos e uma das menores taxas da região, o caso de uso principal é o cross-border.

Noventa por cento do volume, no cálculo da Binance

O número citado no palco mede o peso relativo das stablecoins no mercado peruano. A transferência internacional tradicional é cara, demorada e cheia de intermediários — daí a utilidade reconhecida para o usuário.

Favorável não quer dizer sem risco

Três frentes de preocupação ficaram registradas: impacto potencial na estabilidade financeira, efeito sobre a transmissão da política monetária e concentração — poucos provedores desse tipo de instrumento em toda a economia.

Em produção

O CBDC peruano é distribuído por uma operadora de telecom

O piloto peruano roda num modelo híbrido: o banco central emite a moeda digital e um agente privado a distribui. O distribuidor escolhido não é um banco, é a operadora de telecomunicações Bitel, por dois motivos declarados — forte presença nas zonas rurais e uma carteira digital já em operação, aberta a qualquer um que quisesse baixá-la, não apenas aos próprios clientes. O foco do piloto são 8 das 24 regiões do país, o terço de menor bancarização.

A carteira que recebe mas não envia perde a disputa

A limitação apareceu na prática: como a distribuidora é telecom e não oferece contas bancárias, num ecossistema em que todas as carteiras bancárias são interconectadas ela pode receber fundos de outras, mas não enviar — desvantagem competitiva citada pelos próprios usuários.

Por isso a empresa pediu licença de emissora de dinheiro eletrônico

A saída encontrada foi buscar a licença que permite prover contas e assim entrar de fato no ecossistema. A lição extraída: a interoperabilidade reduz consideravelmente os custos de entrada no mercado.

Quem não tinha banco saiu do piloto querendo abrir conta

A terceira lição foi a mais otimista: perguntados depois de usar a carteira, usuários não bancarizados se disseram animados a abrir conta numa instituição financeira. Sinal de que o CBDC pode impulsionar bancarização e inclusão.

Onde divergiram

Onde colocar a barra de entrada — e o custo oculto de errar para cima

A pergunta que fez o painel sair do relatório por país foi sobre as startups: com a barra subindo, muita empresa provavelmente não vai conseguir cumprir os requisitos de capital. De um lado, a lógica do capital mínimo é dar garantia e segurança ao consumidor — patrimônio de onde buscar ressarcimento se algo der errado. De outro, veio a dinâmica da concorrência: mais jogadores disputando não brigam só por participação de mercado, são forçados pela pressão de resultado a expandir a base de clientes, como mostra a experiência dos bancos.

A alternativa proposta inverte o alvo: em vez de elevar a barra do mercado, elevar a do próprio regulador, com fiscalização de informação em tempo real e on-chain. Quanto maior a capacidade de detectar a falha efetiva, menos se precisa apostar em sistemas supostamente à prova de problemas por desenho. Segurança para o investidor, ficou dito, também é um fator de competição — não só uma barreira.

A indústria disse na consulta que o capital estava alto demais

O caso uruguaio virou a resposta prática ao dilema: os requisitos de capital colocados na consulta pública foram apontados pelo mercado como elevados a ponto de cortar a inovação. O regulador refletiu sobre os valores.

Mesma atividade, mesmo risco, mesma regulação

A recalibragem foi feita por equivalência: procurar no perímetro já regulado uma atividade assimilável e copiar a exigência. As casas de câmbio serviram de régua para quem troca ativo virtual por ativo virtual ou por moeda fiduciária.

Garantia para todos, patrimônio extra só para quem custodia

O desenho final: garantia mínima de aproximadamente 98 mil dólares exigida de todo provedor, e requerimento adicional de patrimônio apenas para quem custodia ou administra ativos de clientes, equilibrado com o dos fiduciários financeiros.

Digo: vou subir a barra do regulador. Se você baixa a barra, tem de responsabilizar sobre eventuais falhas.

O recado

Sem cooperação internacional, supervisionar isso é impossível

O fecho saiu do plano nacional. Ativos digitais não têm barreira geográfica, e a supervisão também não deveria ter: as empresas autorizadas em uma jurisdição transacionam em várias outras. El Salvador começou uma iniciativa de memorandos de entendimento com diferentes países, num processo descrito como muito longo quando envolve bancos centrais — um deles já em ajuste fino. O tamanho do problema também foi dito: a indústria vale trilhões de dólares, é gigantesca e sofisticada, e quanto mais cresce, menos informação se tem sobre como funciona.

Parece um pato, tratemos como um pato

O maior desafio de supervisão apontado não foi técnico, foi de método: continuar regulando por semelhança, sem entender a fundo que se trata de uma indústria inovadora e já madura, e não de uma versão nova do que já existia.

O que dá para supervisionar — e o que foi dito que não dá

Na tokenização com subjacente há 100% de rastreabilidade, e o contrato inteligente torna inútil um token roubado, que não se move sem as autoridades: entendida a fundo, a indústria seria simples de supervisionar. Já sobre DeFi a frase foi outra — fantástico, mas não vai ser supervisionado.

O perímetro aumentou, a dotação não

O contraponto de quem supervisiona o sistema financeiro tradicional: incorporar essa tecnologia exige capacidades novas que ainda faltam, e o perímetro cresceu sem que a equipe crescesse — restou transformar e adaptar competências dentro de casa.

Não basta ter uma barreira de entrada

Depois que as empresas entram, é preciso supervisioná-las — e o que interessa no fundo é a estabilidade, a solvência, a eficiência e o desenvolvimento do mercado. Ter as normas não basta: elas precisam ser implementadas, e isso se verifica indo à rua.

Sem cooperação internacional é impossível supervisionar esse tipo de entidade.

O que ficou

Assentado

  • O grupo de trabalho da CVM tem 60 dias para propor infraestrutura, custódia, liquidação e a adaptação da regulação a ativos emitidos e negociados em DLT.
  • El Salvador segue sendo o único país com um ente regulador dedicado a ativos digitais, com janela única de entrada e taxa de rejeição de 80%.
  • O Uruguai já emitiu o marco: autorização em vez de mero registro, garantia mínima de cerca de 98 mil dólares para todos e patrimônio adicional só para quem custodia ativos de clientes.
  • No Peru não há regulação específica de criptoativos além de temas de lavagem, e o piloto de moeda digital do banco central roda com uma operadora de telecom nas 8 regiões menos bancarizadas.
  • A mesa convergiu num ponto: sem cooperação internacional não há como supervisionar entidades que operam em várias jurisdições ao mesmo tempo.

Em aberto

  • Onde fica a barra certa de entrada não se resolveu: o argumento da concorrência e o da proteção do consumidor foram postos lado a lado, sem reconciliação.
  • Como supervisionar DeFi ficou explicitamente de fora — foi dito que não será supervisionado, sem que uma alternativa fosse apresentada.
  • Nenhum prazo foi dado para os memorandos de entendimento em negociação entre El Salvador e outras jurisdições.
  • O número de usuários ativos do piloto de CBDC no Peru não ficou registrado nesta cobertura: a legenda se interrompe exatamente nesse trecho. O que restou foi a menção a crescimento e às limitações da carteira.
  • Quanto o Uruguai vai exigir de patrimônio adicional de quem custodia não foi dito em número — só que será equivalente ao dos fiduciários financeiros.

Termos citados

DLT
Tecnologia de registro distribuído, a infraestrutura em que um ativo pode ser emitido e negociado sem um livro central único.
É o alvo do grupo de trabalho da CVM: adaptar a regulação de ativos emitidos e negociados nesse tipo de registro.
CBDC
Moeda digital emitida pelo banco central, que pode ser distribuída ao público diretamente ou por um agente privado.
No piloto peruano o modelo é híbrido: o banco central emite e uma operadora de telecom distribui.
Regra de viagem
Obrigação de que os dados de quem envia e de quem recebe acompanhem a transferência de ativos virtuais.
O Uruguai a incluiu para todo tipo de transação, junto com forte exigência de conhecimento do cliente.
GAFI
Organismo internacional que fixa os padrões de prevenção à lavagem de dinheiro seguidos pelos reguladores nacionais.
A pressão do GAFI foi apontada como uma das razões para o Uruguai trazer os provedores para dentro do perímetro.
DeFi
Finanças descentralizadas: arranjos que funcionam por contrato inteligente, sem uma entidade identificável no meio.
Foi o exemplo dado do que fica fora do alcance: fantástico, mas não vai ser supervisionado.
Emissora de dinheiro eletrônico
Licença que permite a uma empresa não bancária oferecer contas e integrar o ecossistema de pagamentos.
A distribuidora do CBDC peruano pediu a licença justamente para poder enviar fundos a outras carteiras.
Marcos citados
  1. 2021Nayib Bukele legaliza o Bitcoin em El Salvador, e o país inteiro passa a ter de aprender a tecnologia a fundo.
  2. Semanas antesA CVM anuncia o grupo de trabalho de tokenização que abriu a primeira pergunta do painel.
  3. AgoraO Uruguai emite a normativa que regulamenta os provedores de serviços de ativos virtuais, depois de recalibrar os requisitos ouvidos em consulta pública.
  4. Em 60 diasPrazo para o grupo de trabalho da CVM entregar as propostas de infraestrutura, custódia, liquidação e regulação de ativos em DLT.

Citados na sessãoCVM·Comissão Nacional de Ativos Digitais·Banco Central do Uruguai·Banco Central do Peru·Regdoor·Binance·Bitel·Tether·GAFI·Bitcoin·Blockchain.RIO

TemasRegulação·Supervisão·Stablecoins·CBDC·América Latina

Quem falou

A seguir neste palco

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

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