12/08 · 12h35–13h1540 min de sessãoresumo em 10 min
A tokenização saiu do piloto e encostou no core dos bancos
Emissor, custódia e nuvem na mesma mesa: o que já achou mercado na tokenização e onde estão os riscos de verdade.
US$ 2 a 3 biem Treasuries tokenizados, atrás só da BlackRockdado apresentado na sessão
US$ 1 bilhãoem ações tokenizadas em menos de dez mesesdado apresentado na sessão
quase 200clientes de custódia na América Latina em cinco anoscitado no painel
US$ 2 trilhõesé o mercado cripto, um terço do imobiliário de Nova Yorkcomparação feita no painel
O essencial
Tokenizar não fabrica liquidez
Recriar liquidez on-chain é caro e difícil. Foi por isso que o caminho começou pelo ativo mais líquido da história — o Tesouro americano — e só depois passou às ações.
A demanda latente é desconfiança, não falta de acesso
O segmento descrito como mais interessante não é o desbancarizado: é quem tem acesso e não confia no canal — no judiciário local, no governo ou no funcionário do banco. A autocustódia é o gancho.
Os perps de RWA cresceram mais rápido que qualquer produto do setor
Praticamente não existiam até outubro do ano passado e já há dias em que volume e posições em aberto superam os criptoativos em exchanges como a Hyperliquid, com a mesma base de usuários.
Acabou a era do separado por design
No dia do painel um grande banco brasileiro lançou custódia de ativos digitais para clientes corporativos, e outro está migrando sua exchange cripto para dentro do app bancário. Integrar ao legado virou requisito.
O risco temido não é sistêmico
A leitura apresentada foi que não há nada de novo sob o sol: os perigos citados são um emissor de baixa qualidade capaz de repetir um caso Luna e a guarda das chaves privadas.
Quem está correndo atrás é a infraestrutura de mercado
O fecho inverteu o ônus: gestão de colateral além do tradicional, repo e DvP em blockchain estão sendo cobrados de quem liquida e compensa. Só quando isso entrar em produção esses produtos mudam de escala.
Contexto
Painel em inglês no Main Stage reunindo três camadas da mesma pilha: o emissor de ativos tokenizados, a infraestrutura de custódia e a nuvem que sustenta as duas. A pergunta de abertura foi direta — que produtos tokenizados estão de fato encontrando mercado e quem são os clientes — e a conversa foi dos Treasuries e das ações tokenizadas aos perps de RWA, passou pela integração com o legado dos bancos e terminou nos riscos. O representante do Bradesco chegou a ser anunciado, mas não subiu ao palco.
A sessão em detalhe
Abertura
Três camadas da mesma pilha na mesma mesa
A apresentação foi feita em português e a mesa trocou de língua logo no primeiro minuto: o painel inteiro correu em inglês. O desenho da mesa não era casual — sentaram lado a lado quem emite ativos tokenizados, quem guarda a chave que os move e quem hospeda a computação por baixo dos dois. A mediação foi quem organizou as perguntas.
A pergunta de partida foi de mercado, não de tecnologia: que produtos tokenizados estão de fato encontrando mercado, e quem são os clientes que os compram? A resposta veio em três ângulos que se encaixaram — o emissor, a custódia e a nuvem — e convergiu para a mesma leitura: a tokenização passou da fase de piloto e começou a se conectar ao core do sistema financeiro. Um quinto nome, do lado do banco custodiante, foi anunciado, mas a cadeira ficou vazia.
Do emissor à nuvem, sem pular etapa
Ondo Finance no papel de emissora de RWAs, Fireblocks como infraestrutura de carteira e custódia institucional, e a AWS como camada de soluções para o setor financeiro. A pilha inteira, de ponta a ponta, num painel só.
A pergunta que organizou a hora
Que tipo de produto está achando product-market fit, e que tipo de cliente está sendo mirado agora? Foi dessa pergunta que saíram as três respostas do painel — e todas passaram por liquidez, confiança e integração com o que já existe.
A ruptura
Tokenizar não fabrica liquidez
A primeira resposta desmontou o pressuposto de partida do setor: muita gente assume que tokenizar cria liquidez por mágica, quando recriar liquidez on-chain é caríssimo e trabalhoso. A saída apresentada foi a inversa — em vez de tentar fabricar liquidez, começar pelo ativo mais líquido que já existiu na história humana, o título do Tesouro americano. O contexto ajudava: os rendimentos de DeFi estavam baixos, os T-bills pagavam 5% e havia muito caixa parado em stablecoin sem nenhuma forma segura de render.
O primeiro produto nasceu institucional
Porque os usuários eram institucionais: gente com US$ 100 milhões parados em stablecoin e sem jeito de ganhar rendimento com segurança. Só depois, ao perceber que aquilo escalava, veio a versão voltada ao varejo.
Nenhuma corretora profissional para no Tesouro
O argumento é de produto, não de cripto: ninguém pagaria por uma corretora cuja única entrega fosse a taxa do T-bill. Daí o passo seguinte ser o segundo mercado mais líquido do mundo, as ações americanas.
Segunda maior emissora, atrás só da BlackRock
Em Treasuries tokenizados, a posição citada é a segunda do mercado, com US$ 2 a 3 bilhões de valor depositado dependendo do dia — e o comentário sobre ficar atrás da BlackRock foi que é uma boa posição para ocupar.
Quando muita gente pensa em tokenização, simplesmente assume que ela vai criar liquidez por mágica. Não poderia estar mais longe disso. Recriar liquidez on-chain é imensamente caro, e é difícil.
A tese
A demanda latente não é falta de acesso: é falta de confiança
A tese de entrada nas ações tokenizadas era simples: gente pelo mundo não tem acesso a ações americanas. Conversando com usuários, a tese se confirmou em parte — há lugares onde a compra é legalmente vedada, e há gente sem sequer uma conta bancária segura, quanto mais uma conta em corretora. Mas o que apareceu como mais interessante, e como um segmento muito grande, foi outro: o de quem tem acesso e mesmo assim não usa, porque não confia no canal.
A desconfiança foi destrinchada em três endereços concretos: o judiciário local, que talvez não respalde o direito sobre o ativo se o provedor quebrar; o governo; e o funcionário do banco que pode simplesmente dizer que os ativos não estão mais lá. O caso brasileiro entrou como exemplo de memória viva — o congelamento de contas bancárias — e a conclusão foi que o apelo da autocustódia, aquilo que fez sentido no Bitcoin, se transfere inteiro para o ativo tradicional tokenizado.
Um bilhão em ações tokenizadas em menos de dez meses
O produto de ações tokenizadas ultrapassou US$ 1 bilhão em pouco menos de dez meses. É o número apresentado como prova de que a demanda reprimida existia e não era pequena.
Não é só o desbancarizado
Quem não tem conta segura nem chega perto de uma corretora, e essa camada é real. Mas ela convive com outra, maior e menos óbvia, que tem acesso e escolhe não usar por preço ou por desconfiança.
A autocustódia sai do Bitcoin e entra na ação
A característica que sustentou o Bitcoin — guardar você mesmo, sem depender de ninguém — é lida aqui como o que a tokenização entrega ao ativo tradicional, e não o fracionamento ou o horário estendido.
Eles não confiam no judiciário local para respaldar o direito sobre o ativo, em caso de falência do provedor. Talvez não confiem no governo. Ou não confiem no cara do banco para não dizer que os ativos não existem mais.
Prova de campo
Os perps de RWA e a curva mais íngreme já vista no setor
Perpétuos sobre ações, ETFs e commodities foram descritos como o produto de crescimento mais rápido já visto no setor. Praticamente não existiam até outubro do ano passado; nos oito meses seguintes, a curva virou taco de hóquei. E o dado que trai a mudança de comportamento: há muitos dias em que o volume e as posições em aberto de perps de RWA eclipsam os dos criptoativos em exchanges como a Hyperliquid — mesma base de usuários, mesmos ativos na plataforma, mas é isso que as pessoas querem negociar.
Eficiência de capital que era só de instituição
O ativo tokenizado pode ser postado como colateral, e a alavancagem que sai daí só existia em mesa institucional. Para o pequeno investidor, tomar essa alavancagem podia custar 15% ao mês, com risco de chamada de margem em cima.
Um ano volátil em petróleo e ouro
O segundo motor citado é macro: eventos geopolíticos movendo petróleo e ouro deixaram o volume nesses ativos enormemente alto. A demanda por negociar isso encontrou o instrumento pronto.
A trade de IA sem uma ação de IA
Cripto não tem um bom ativo para expressar o crescimento da IA. As ações coreanas de memória, caras nos EUA e acessíveis no Brasil só via Interactive Brokers, viraram exposição puramente sintética no perp.
É uma inovação financeira de verdade. Acho que na escala da stablecoin.
Os números
Quase 200 clientes na região e um piloto da DTCC indo a produção
Do lado da infraestrutura, a linha do tempo foi contada em quatro degraus. Primeiro o Bitcoin institucional — mesas de trading, gente na Ásia com centenas de milhões em bitcoin. Depois as stablecoins, a primeira forma de representar dinheiro on-chain. Em seguida os Treasuries tokenizados, quando ficou claro que dava para ir além da stablecoin. E, há um ou dois anos, a abertura das comportas para as ações tokenizadas, com o crescimento em taco de hóquei puxado pelas fintechs que passaram a oferecer isso em vários mercados.
Da maior exchange ao tenista argentino
Em quase cinco anos de operação latino-americana, a base chegou perto de 200 clientes: de grandes exchanges a startups pequenas tokenizando a carreira de tenistas ou passagens aéreas na Argentina.
Dois terços de tudo ainda é stablecoin
A expectativa citada para este ano passa de US$ 1,8 trilhão em ativos digitais, com mais de dois terços em stablecoins — e a leitura foi de que a movimentação de dinheiro e os pagamentos ainda estão só arranhando a superfície.
O tamanho do jogo em perspectiva
O piloto com a DTCC caminha para produção, com nomes como Citadel e Alpaca, num ambiente que liquida e compensa trilhões por dia. Mesmo assim, o mercado cripto de cerca de US$ 2 trilhões equivale a um terço do imobiliário de Nova York: o jogo está só começando.
Em produção
Acabou o separado por design
Durante anos o padrão dos projetos foi o mesmo: uma entidade à parte construindo um produto para o mercado, sem ligação real com os sistemas centrais da instituição. Era separado por design, e fazia sentido diante da regulação de então. Esse desenho está acabando. No próprio dia do painel, um grande banco brasileiro lançou custódia de ativos digitais para clientes corporativos; outro está migrando sua exchange cripto proprietária para dentro do app bancário comum, de modo que o cliente acesse tudo no mesmo lugar. Quando a operação entra na nave-mãe, a avaliação de risco muda e o conjunto de requisitos de integração é outro — inclusive na relação com os fornecedores de infraestrutura.
O desenho técnico que se repete mantém a fronteira clara: KYC, antifraude e o ledger tradicional continuam off-chain, por exigência regulatória e porque é assim que os sistemas legados são; o que acontece on-chain fica refletido nesses registros. Os bancos podem experimentar solução on-chain, mas não vão esquecer o legado — a infraestrutura e o negócio deles moram lá.
A suspensão do DREX não parou o movimento
A experiência dos clientes com a iniciativa, depois suspensa, não interrompeu a migração: bancos e instituições de pagamento seguiram desenvolvendo soluções on-chain e de DLT próprias, para ativos financeiros e não financeiros.
Segurança primeiro, segregação e resiliência
As boas práticas listadas do lado da nuvem: segurança desde a concepção, segregação virtual dos ambientes on-chain, resiliência à altura de um mercado que negocia 24 horas por sete dias, e o framework de arquitetura bem projetada desde o início.
Chaves, Nitro e computação multipartes
Do lado da nuvem entram gestão de chaves e computação multipartes, esta apoiada no Nitro, além de poder computacional, escalabilidade e elasticidade — insumos que a camada de custódia empacota e abstrai para o cliente institucional.
No fim do dia, é implementação
De nada adianta o melhor sistema se a implementação abrir um vetor. Daí as arquiteturas de referência montadas dos dois ângulos — provedor de nuvem e provedor de custódia — para cobrir todos os pontos e reduzir vetores de ataque e pontos de falha.
O que trava
O risco sistêmico é menor do que parece; a trava está na infraestrutura de mercado
Perguntado sobre que riscos novos esses produtos criam, o painel respondeu pela negativa: não há nada de novo sob o sol. A negociação 24 por 7 de ativos tokenizados — começou com um punhado deles e já vai em 20, crescendo a cada fim de semana — na verdade reduz o risco de quem dá esses ativos em garantia, porque a liquidez não some no sábado. E, mesmo sem os 24 por 7, o gap de fim de semana nunca foi novidade para as finanças tradicionais: bancos e prime brokers sempre alavancaram fundos por cima do fim de semana, sob regulação pesada calibrada pela composição da carteira. ADRs e BDRs foram citados como o precedente óbvio — ninguém fala em risco expandido quando uma ação estrangeira negocia numa bolsa americana.
Os riscos que sobraram foram nomeados sem rodeio. Um emissor de baixa qualidade tomando risco demais no produto e provocando um evento à la Luna, que assusta o usuário por anos. E a gestão de chaves privadas, num ambiente em que dá para atacar com uma assinatura barata de IA, o código aberto é a fruta ao alcance da mão e organizações do porte de Estados-nação estão do outro lado. Quem opera perps 24 por 7 já está lá no alto da curva de risco e não está ali por proteção ao investidor — ainda que as proteções sejam estendidas onde cabem, com isolamento em caso de falência descrito como mais seguro que o do USDC.
Vinte ativos 24 por 7, e mais a cada fim de semana
A negociação ininterrupta começou com poucos ativos e já está em 20. Para quem penhora esses ativos como colateral em um protocolo, ter liquidez no fim de semana torna a posição menos arriscada, não mais.
Onde ainda é mais barato explodir
A comparação foi feita ao contrário do esperado: tomar risco é mais barato no mercado tradicional, onde não há liquidação instantânea e a alavancagem implícita se acumula dentro do sistema. É lá que se estoura grande.
Em cinco anos, ninguém vai saber que está na blockchain
O público de hoje foi descrito como deliberadamente tomador de risco. A projeção feita no palco é que daqui a cinco anos esses usuários serão clientes de neobancos que nem saberão que há uma cadeia por baixo.
As infraestruturas de mercado é que estão correndo atrás
O fecho do painel inverteu o ônus: as infraestruturas de mercado é que estão sendo forçadas a se atualizar — gestão de colateral além do tradicional, repo e DvP em blockchain. Quando elas alcançarem, produtos como os discutidos ali chegam a outra escala.
Acho que segurança vem primeiro, sim. E por isso estou muito mais preocupado com o usuário perdendo acesso, mais preocupado com hacker, do que com um risco financeiro sistêmico sendo introduzido.
O que ficou
Assentado
O caminho começou pelos Treasuries tokenizados porque recriar liquidez on-chain é caro — e a posição citada nesse mercado é a segunda, atrás só da BlackRock, com US$ 2 a 3 bilhões depositados.
As ações tokenizadas passaram de US$ 1 bilhão em menos de dez meses, e os perps de RWA já têm dias em que superam os criptoativos em volume em exchanges como a Hyperliquid.
KYC, antifraude e o ledger tradicional seguem off-chain por exigência regulatória e do legado, com o que acontece on-chain refletido nesses registros.
No dia do painel um grande banco brasileiro lançou custódia de ativos digitais para clientes corporativos, e o piloto com a DTCC foi descrito como caminhando para produção.
Em aberto
Quanto do crescimento dos perps de RWA sobrevive a um ciclo macro menos volátil ficou sem resposta: volatilidade em petróleo e ouro foi apontada como um dos motores.
O prazo em que as infraestruturas de mercado concluem a atualização não foi dado; o piloto da DTCC foi citado como caminhando para produção, sem calendário.
Como proteger o usuário quando o público deixar de ser tomador de risco ficou como projeção de cinco anos, sem desenho de como as proteções acompanham essa virada.
Termos citados
RWA
Ativos do mundo real — títulos públicos, ações, ETFs, commodities — representados em blockchain.
Dá nome à família de produtos que organizou o painel inteiro.
Perp
Contrato futuro perpétuo, sem data de vencimento; aqui aplicado a ações, ETFs e commodities.
Descrito como o produto de crescimento mais rápido já visto no setor.
TVL
Total value locked: o valor total depositado em um produto ou protocolo on-chain.
US$ 2 a 3 bilhões foi a faixa citada em Treasuries tokenizados.
Autocustódia
Guarda direta do ativo pelo próprio dono, sem depender de um intermediário para provar o direito sobre ele.
Apontada como o gancho para quem tem acesso ao ativo, mas não confia no canal local.
DTCC
Infraestrutura que liquida e compensa o mercado americano, movimentando trilhões por dia.
Citada em um piloto caminhando para produção, com gestão de colateral, repo e DvP em blockchain.
Computação multipartes
Técnica que fragmenta a chave privada entre várias partes, de modo que nenhuma sozinha consiga movimentar o ativo.
Citada entre os recursos de nuvem para guarda de chaves, ao lado da gestão de chaves e do Nitro.
Marcos citados
Outubro do ano passadoMarco citado para o surgimento dos perps de RWA, que praticamente não existiam antes disso.
12/08, dia do painelLançamento de custódia de ativos digitais para clientes corporativos por um grande banco brasileiro.
Citados na sessãoOndo Finance·Fireblocks·Amazon Web Services·Bradesco·BTG Pactual·BlackRock·DTCC·Citadel·Alpaca·Hyperliquid·Interactive Brokers·Brazil Crypto Report·DREX·USDC·Blockchain.RIO