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LATAM Stage

13/08 · 13h35–14h1540 min de sessãoresumo em 6 min

Do uso real à norma: o caso argentino

Quatro profissionais do ecossistema argentino contaram por que o país usou cripto antes de ter regra — e o que ainda falta para a empresa de fora entrar.

Camila SoriaGina GiraldoMatias SantaolayaCamila SuffiottiPia Cisneros

O essencial

Contexto

Painel argentino do LATAM Stage, moderado por Pia Cisneros: um contador que trabalha com comunidades, uma advogada de planejamento internacional, uma exchange voltada a empresas e uma agência de PR. Em vez de futurologia, a mesa descreveu uma sequência invertida — o uso apareceu por necessidade, a norma veio atrás — e listou o que a Argentina ainda precisa entregar para atrair empresa estrangeira.

A sessão em detalhe

Abertura

A mesa argentina: adoção, regra, pagamento e narrativa

O painel da Argentina abriu com quatro profissionais apresentados como gente que já está dentro da indústria construindo o ecossistema cripto — cada um olhando para um pedaço diferente do mesmo problema.

Quatro cadeiras, quatro ângulos do mesmo país

Matias Santaolaya vem da adoção e das comunidades; Camila Soria, do direito; Camila Suffiotti, de uma exchange voltada a empresas; Gina Giraldo, de uma agência de PR de cripto e Web3.

A pergunta de partida foi a adoção

A mesa partiu de uma pergunta direta: por que a Argentina aparece entre os países de maior adoção. A resposta veio pela economia, e não pela tecnologia.

A tese

A adoção veio de baixo para cima, por necessidade

Vista de dentro do trabalho de adoção e de criação de comunidades, a explicação da adoção argentina começa pela economia: décadas de instabilidade, inflação, desvalorização e restrições cambiais ensinaram o argentino a operar na moeda de outro país. Quando a infraestrutura blockchain chegou, principalmente pelas stablecoins, usá-la foi apenas o passo seguinte de um hábito que já existia.

O dólar já era o costume; a stablecoin só entrou

Num país de restrição cambial, inflação e desvalorização, adotar a moeda de outro país era rotina. A tecnologia pegou carona numa necessidade que já estava dada.

Nenhum governo impôs, e isso muda o desenho

O movimento cresceu de baixo para cima, sem imposição de política pública. Começou pelo uso e, só depois, virou assunto de norma — o inverso do caminho que a mesa atribuiu à Europa.

Talento e universidade explicam a outra metade

Além da necessidade, a adoção também foi creditada ao talento argentino e às muitas universidades com foco em tecnologia, que empurram gente para dentro da indústria.

Foi algo que cresceu de baixo para cima. Não é que nos impuseram através dos governos e tal, mas sim por uma necessidade.

O relógio

Da 1.058 ao sandbox: a regra chegou depois do uso

O caminho argentino é o inverso do europeu, e a mesa o descreveu assim: enquanto a MiCA desceu de cima para baixo, na Argentina a regulação foi atrás do uso. Começou em 2017, no governo Macri, antes de o país entender do que se tratava a tecnologia, e só no último ano se abriu de verdade — puxada pela tokenização.

A 1.058 abriu com licença e trava curta

A primeira regra de tokenização da CNV entrou estreita: licença para operar, exigência de capital e segregação de ativos, enquanto o regulador observa quais casos aparecem.

O sandbox foi estendido até o ano que vem

A extensão mantém operando quem já se inscreveu e adia a definição de categoria de cada ativo, enquanto o regulador acompanha os casos positivos e os negativos.

Aprovação automática até um milhão de UVAs

Dentro do desenho citado, uma empresa poderia emitir suas ações tokenizadas até esse teto contratando um prestador, com aprovação automática, sem análise caso a caso.

Não é a mesma coisa falar de stablecoins, não é a mesma coisa falar de mineração, não é a mesma coisa falar de token. Aí você entra em muitos vazios legais.

Em produção

O caso que já roda: pagar o fornecedor antes da carga

Existe exchange voltada ao mercado de empresas por uma razão histórica: na Argentina a adoção cripto nasceu no varejo, e a companhia ficou de fora. No auge do cepo cambial, pagar um fornecedor no exterior por cripto não era alternativa, era a única via. A trava mudou de forma, mas não desapareceu.

A regra manda esperar o embarque para pagar

Para importar, a empresa precisa aguardar o fornecedor despachar a mercadoria antes de o pagamento sair — e o fornecedor lá fora quer receber antes de despachar.

PME argentina não tem balanço nem confiança

Sem crédito do fornecedor e sem histórico que gere confiança no exterior, a saída oferecida pela exchange é antecipar o pagamento para a mercadoria enfim sair.

Transparência e rastreabilidade seguem ignoradas

As empresas desconhecem os ganhos de transparência, rastreabilidade e eficiência do ecossistema, e o uso segue concentrado em quem já foi obrigado a entender.

À empresa não tem que importar se eu uso cripto, CCL ou o que for. Tem que importar que o dinheiro dele vai chegar ao fornecedor em menos de 24 horas.

O que trava

O que trava é confiança, e a fraude cobrou o preço

A comunicação entrou na mesa como o elo que falta entre usuário final, setor público e empresas, lida a partir de uma agência de PR focada em cripto, Web3 e tecnologia. O passivo é conhecido: a opinião pública argentina foi martelada com a associação entre cripto e golpe, e a região levou pirâmides e esquemas Ponzi em cheio.

Os pioneiros construíram sem usuário informado

Os primeiros projetos argentinos avançaram sem ninguém informado do outro lado. Hoje o trabalho é de narrativa, insistência e coerência entre o que se diz e o que se faz.

O escândalo que todos lembram virou lição perdida

A mesa lembrou o caso argentino que todo mundo reconhece: o esquema foi entendido em minutos porque estava na blockchain, e o setor não converteu o episódio em educação.

Poucas empresas educam além do produto

À pergunta se as empresas atendidas levam mensagem educativa além do produto, a resposta veio sem rodeio: algumas sim, muitas não.

O medo herdado do corralito segue de pé

A mesa somou a falta de educação financeira de empresa e de pessoa física: quem viveu o corralito guarda dólar no colchão e perde valor ano após ano.

Os argentinos do cripto realmente fizeram mágica, porque não havia um usuário realmente informado.

Onde concordaram

A briga por empresa é de jurisdição, e se ganha com regra

Perguntada sobre o que a Argentina faz para atrair projeto e empresa de fora, a mesa deu a mesma resposta em ordens diferentes: regra clara primeiro, incentivo depois. De um lado, o problema tributário e burocrático crônico; do outro, os regimes especiais que já estão em curso em Mendoza.

Um regime novo com alíquota de 25%

O regime proposto no fim do ano passado para quem traz investimento vem com amortizações e transparência, em contraste com estruturas como a BVI, na lista cinza do GAFI.

Mendoza mostra o regime especial na prática

Zona econômica com tratamento tributário preferencial, mudança na lei de sociedades e sociedades automáticas formam o pacote citado, apresentado como caso vivido de perto em Mendoza.

Empresa digital compara Dubai, Singapura e Estônia

Empresa digital compete com o mundo inteiro e olha Dubai, Singapura e Estônia. O que pesa antes do benefício, ficou dito na mesa, é a previsibilidade da regra.

Escolher jurisdição virou ir às compras

Da cadeira do planejamento fiscal, a descrição foi de empresa internacional escolhendo a jurisdição mais favorável — e de países disputando onde o know-how vai se abrigar.

O recado

Por que uma empresa olharia para a Argentina agora

No fechamento, cada cadeira deu um argumento favorável ao país, e as respostas foram para o capital humano: advogados, contadores, administradores e comunicadores especializados, mais uma resiliência apresentada como o diferencial de quem está acostumado a ver tudo mudar de dois em dois dias.

O momento energético entrou no argumento

Lítio, YPF e Vaca Muerta apareceram como parte do bom momento do país, ao lado de cripto e blockchain, para quem pensa em investir de fora.

Europa e Estados Unidos aparecem saturados

Regulação pesada, multa e custo alto empurram o empreendedor para fora, e a mesa relatou a inversão: as empresas agora ligam querendo entrar, não sair.

A conversa terminou em privacidade e identidade

Identidade descentralizada e carteira que não exige mostrar o documento inteiro fecharam o painel: entregar só o dado necessário, em vez de dar tudo em nome da praticidade.

O que ficou

Assentado

  • A adoção argentina veio antes da regra: inflação, cepo cambial e stablecoin fizeram o uso nascer de baixo para cima.
  • O sandbox da CNV foi estendido até o ano que vem, e quem se inscreveu segue operando sob a resolução 1.058.
  • Pagar fornecedor no exterior por cripto virou rotina de empresa que não consegue crédito nem confiança lá fora.
  • A mesa convergiu num pedido antes de qualquer incentivo: regras claras e previsibilidade para quem chega.

Em aberto

  • Ninguém disse quando a norma sai do sandbox nem em que categoria cada ativo cripto vai finalmente cair.
  • A educação financeira ficou como dever de casa sem dono: exchanges, universidades e empresas foram citadas, nenhuma assumiu.
  • O Banco Central argentino, segundo a mesa, ainda não quer falar de cripto, mesmo sabendo que a população usa.
  • Se a janela de interesse estrangeiro vira investimento de fato, ninguém na mesa quis arriscar prazo.

Termos citados

Cepo cambial
Conjunto de restrições argentinas à compra de dólar e ao envio de dinheiro para fora do país.
Citado como o período em que pagar importação por cripto era a única via possível.
CNV
Comisión Nacional de Valores, o regulador do mercado de capitais da Argentina.
Autora da resolução 1.058 e do sandbox estendido até o ano que vem.
Sandbox regulatório
Ambiente em que empresas operam sob regra provisória enquanto o regulador observa os resultados.
O da CNV foi estendido e mantém em operação quem já se inscreveu.
UVA
Unidade de conta argentina corrigida pela inflação, usada para fixar limites e valores em norma.
Teto de um milhão de UVAs no regime de aprovação automática de emissão tokenizada.
CCL
Contado con liquidación: rota de câmbio via compra e venda de ativos para mover dinheiro ao exterior.
Citado ao lado de cripto como meio indiferente para a empresa que só quer o pagamento feito.
Corralito
Bloqueio de saques bancários na crise argentina, lembrado como origem da desconfiança no banco.
Explicaria por que ainda se guarda dólar em casa, perdendo valor ano após ano.
Rug pull
Golpe em que os criadores de um token drenam o dinheiro dos compradores e desaparecem.
Nome dado na mesa ao esquema do caso argentino, lido em minutos porque estava na blockchain.
Identidade descentralizada
Identidade guardada pela própria pessoa, que revela só o dado exigido em cada uso.
Citada com o QuarkID argentino e com a exigência europeia prevista para dezembro.
Marcos citados
  1. 2017Sob Macri, a Argentina começa a aplicar regras a cripto antes de entender do que se tratava a tecnologia.
  2. Ano passadoA CNV lança a 1.058, primeira regra de tokenização, e o país propõe o regime de imposto com alíquota de 25%.
  3. Ano que vemO sandbox regulatório segue estendido e mantém em operação todos os que já se inscreveram na CNV.
  4. DezembroPrazo citado pela mesa para a Europa exigir por lei a identidade digital que dispensa mostrar o documento inteiro.

Citados na sessãoCNV·Macri·Milei·MiCA·Mendoza·BVI·GAFI·OCDE·YPF·Vaca Muerta·Bitconf·QuarkID·Cámara Argentina Fintech·Visa·Cambridge Analytica

TemasArgentina·Regulação·Adoção·Pagamentos ao exterior·Tokenização

Quem falou

A seguir neste palco

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

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