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Trends Stage

12/08 · 17h05–17h4540 min de sessãoresumo em 6 min

Como as registradoras estão se preparando para esse novo mundo tokenizado no Brasil e globalmente?

B3 e Núclea foram ao palco dizer o que já roda: a BRLN liquidando cartas de consórcio e uma stablecoin da B3 ainda em desenvolvimento.

Joao Paulo Aragao PereiraDaniel MaedaRG

O essencial

Contexto

Painel do Trends Stage sobre como as registradoras se preparam para o mundo tokenizado. Moderado por João Paulo Aragão Pereira, da Ripple e professor na FGV, pôs lado a lado Daniel Maeda, superintendente jurídico da B3 e ex-CVM, e Ricardo Gomes, diretor de novos negócios da Núclea. Em vez de futurologia, a mesa passou a sessão delimitando onde a tokenização resolve dor concreta — e onde não resolve.

A sessão em detalhe

Abertura

As provocações da tokenização são de infraestrutura

O painel foi montado como um encontro das duas maiores registradoras do país e começou por uma provocação inicial: por que depositárias e infraestruturas de mercado estão envolvidas no tema da tokenização? Porque as vantagens que se atribuem ao token são endereçadas justamente a elas.

Liquidação diferenciada e 24 horas são pauta de infra

O que costuma ser prometido — liquidação diferenciada, operar 24 horas por dia — é tudo provocação típica de infraestrutura. Foi por isso que a B3 abraçou o tema.

A B3 cuida da jornada inteira do ativo

Da oferta à negociação, da liquidação ao registro da propriedade que sai de quem vendeu e aparece para quem comprou. Em outras jurisdições essas etapas costumam estar fragmentadas.

Padronização e interoperabilidade voltam sempre

A mesa convergiu em que o assunto é de infraestrutura: mesmo na infra mais convencional, os temas que reaparecem são padronização e interoperabilidade entre as estruturas que estão surgindo.

A tese

Tokenização não é panaceia: a pergunta é onde dói

A primeira reflexão importante, ficou dito, é separar onde a tokenização pode ser útil e resolver uma dor de onde ela não vai. No ambiente listado — ações, ETFs, derivativos de bolsa —, a alta liquidez já faz o mercado funcionar com fluidez e facilidade, e é ali que fica difícil enxergar o que o token agrega.

A validação distribuída esbarra na velocidade

A lógica de um registro distribuído tem um desafio de performance diante da velocidade que o ambiente de negociação exige — e é exatamente aí que a conta não fecha.

Onde a liquidez é menor, a conta muda

O espaço da tokenização foi apontado para fora do mundo listado, com a experiência das plataformas de crowdfunding — tema de ofício circular da CVM — como exemplo.

O emissor pequeno ia parar no empréstimo bancário

O emissor queria estruturar um produto de mercado de capitais, via um preço muito alto e acabava pegando um empréstimo. Hoje tem o caminho de uma emissão pequena via token, mais barata.

Acho que a gente tem que ser realista para reconhecer que, assim, tokenização também não é panaceia, né?

O anúncio

A B3 mira 24 por 7 e desenvolve sua stablecoin

A sessão separou o que é ambição de prazo mais longo do que pode sair no curto. As duas ambições declaradas da B3 são negociação 24 por 7 e liquidação instantânea, e as duas passam pelo regulador.

24 por 7 precisa do conforto do regulador

Lá fora as bolsas já abriram horários estendidos, e há propostas de 24 por 5. Chegar ao 24 por 7 com negociação obriga a mover a CVM e a construir a autorização junto com ela.

Da redução do ciclo à liquidação instantânea

A casa já tem o projeto de reduzir o ciclo de liquidação para um dia. A liquidação instantânea vem depois e exige stablecoin por trás: a da B3 está em processo de desenvolvimento.

No curto prazo, algo parecido com DTCC e Nasdaq

A B3 leu o projeto das duas casas americanas — replicar on-chain, em paridade um para um, posições custodiadas de forma convencional — como provocação inicial, e cogita lançar algo assim.

A ruptura

O discurso do 'tudo vira token' afastou o mercado

O mercado ouve falar de tokenização há uns dez anos, e o tom dos primórdios ficou registrado na sessão: a empolgação mandava esquecer tudo o que tinha sido feito até então. Foi essa afirmação que acabou distanciando o mundo cripto do mercado convencional — e das possibilidades que a tecnologia poderia entregar.

O momento agora é de convergência

CVM e Banco Central tratam o assunto com mais entendimento, o mercado tradicional vê oportunidade de evoluir seu modelo de negócio e os entusiastas veem com mais clareza onde a tecnologia agrega.

O poder está na conexão entre as redes

Não há aposta em uma infraestrutura vencedora: o poder da tecnologia vem da conexão entre redes, por interoperabilidade e livre circulação dos ativos entre as infraestruturas.

Bancos grandes ainda rodam mainframe

E processam volumes altos assim. Não existe necessidade de curtíssimo prazo de trocar esse modelo, e trocar agora poderia incorrer em custos totalmente desnecessários: os sistemas vão coexistir.

Era um discurso do tipo: esqueçam tudo o que foi feito até agora, porque tudo vai caber dentro de um token.

Em produção

Núclea: licenças tradicionais e BRLN em paralelo

A leitura da Núclea é operar duas camadas ao mesmo tempo. Uma premissa básica atravessa as duas: a casa não vai tokenizar um ativo cuja existência não consegue validar, e a tecnologia entra onde faça sentido desenvolver, não pela tecnologia em si.

Uma camada com as licenças de sempre

Registro e depósito de ativos tradicionais, derivativos financeiros e ativos de balcão, obtidos pelo caminho convencional, complementando a prateleira de serviços da casa.

Outra camada liquidando em stablecoin

É a BRLN, com liquidação lançada no fim do ano passado. Na leitura da casa, é o movimento natural de conexão entre as finanças tradicionais e o DeFi, sem uma substituir a outra.

O que trava

Quanto mais fragmentado, mais difícil integrar

A mesa puxou o tema da soberania de cada participante para escolher a sua própria rede, e a resposta veio pelo outro lado da equação: quanto mais fragmentado ficar o ecossistema tokenizado, mais difícil fica falar de integração e de interoperabilidade.

A rede da ANBIMA como tentativa de senso comum

O esforço da ANBIMA apareceu como resposta consciente à preocupação de fragmentar demais: algo de senso comum a que todos fazem adesão. Se vai dar certo, o tempo dirá.

Todo regulado passa por alguma infraestrutura

Bancos, fundos, institucionais e varejo. Se a infraestrutura trouxer um consenso sobre protocolos e arquitetura, cada um segue escolhendo, mas entra em algo já pré-concebido e escalado.

A dor está do outro lado do balcão

Se o que a infraestrutura desenvolver exigir um esforço de adaptação muito grande e caro do participante, será problemático. Cabe a ela, e não ao participante, liderar esse processo.

Muito se fala: por que não usar a ISO 20022 para fazer esse fluxo?

Prova de campo

Da carta de consórcio ao recebível de cartão

A sessão trouxe três casos da Núclea, e o primeiro se destaca porque a conversa com o mercado é sobre a solução, não sobre a tecnologia. Quando se pesa a mão na sigla — isto aqui é DLT, isto aqui é blockchain —, o mercado mais tradicional recua; falando só da solução, a conversa fica muito mais fácil.

Consórcio: um secundário que existe, mas é balcão

No fim do ano passado a Núclea passou a usar a BRLN para liquidar o mercado secundário de cartas de consórcio, que existe, mas é balcão não organizado e sem padrão.

CCB: tokenizar é a fase inicial, não o valor

A beleza do projeto não está na tecnologia: está na clareza de que, para integrar um smart contract e fazer liquidação atômica, o ativo precisa estar num ambiente tokenizado.

Recebível de cartão destrava a cessão da cessão

Na registradora convencional só cabe uma cessão. Os FIDCs adiantam recebíveis ao estabelecimento e esbarram nesse limite quando querem repassar; no token, a cadeia de cessões passa a ser viável.

O que ficou

Assentado

  • A B3 tem a sua própria stablecoin em processo de desenvolvimento, anunciada no palco do Trends Stage.
  • A Núclea liquida o mercado secundário de cartas de consórcio com a BRLN desde o fim do ano passado.
  • As duas casas trataram padronização e interoperabilidade como tema de infraestrutura, e ficou dito que cabe a elas liderar.
  • A mesa não defendeu tokenizar tudo: o critério declarado é resolver uma dor concreta já diagnosticada.

Em aberto

  • Negociação 24 por 7 depende de autorização da CVM, e o painel não apresentou prazo nenhum para isso.
  • A pergunta sobre por que não usar a ISO 20022 nesse fluxo ficou no ar; a resposta falou de modelo comum, não do padrão.
  • Se a rede da ANBIMA vai virar o padrão comum do mercado, ficou dito no painel que só o tempo é que dirá.
  • Outros casos da Núclea foram citados como ainda não compartilháveis, sem indicação de quando serão públicos.

Termos citados

Cessão da cessão
Repasse de um crédito que já havia sido cedido uma vez, formando uma cadeia de cessões.
Não é permitida na registradora convencional; é o que a Núclea diz destravar com o token.
BRLN
Stablecoin da Núclea usada para liquidar operações dentro da infraestrutura da casa.
Liquida o mercado secundário de cartas de consórcio desde o fim do ano passado.
CCB
Cédula de Crédito Bancário, título de dívida emitido por quem toma crédito de uma instituição.
A Núclea levou as CCBs e os direitos do ativo para dentro da infraestrutura tokenizada.
Carta de consórcio
Documento que representa a cota de um consórcio e pode ser negociado entre participantes.
Tem mercado secundário, mas de balcão não organizado e sem padrão, como se registrou no painel.
Liquidação atômica
Liquidação em que as duas pontas da operação acontecem juntas, ou não acontecem.
Razão pela qual a Núclea leva o ativo ao ambiente tokenizado antes de agregar valor.
Interoperabilidade
Capacidade de redes e infraestruturas diferentes trocarem ativos e informação entre si.
Tem dimensões distintas: entre infraestruturas e entre a infraestrutura e seus participantes.
ISO 20022
Padrão internacional de mensagens usado pelo sistema financeiro para trocar informação.
A pergunta de por que não usá-lo nesse fluxo foi levantada; a mesa não voltou ao ponto.
FIDC
Fundo de investimento em direitos creditórios, que compra recebíveis como os de cartão.
Adiantam recebíveis ao estabelecimento e esbarram no limite de uma única cessão.

Citados na sessãoB3·Núclea·CVM·Banco Central·ANBIMA·DTCC·Nasdaq·Ripple·FGV·USP

TemasTokenização·Infraestrutura de Mercado·Stablecoin·Regulação·Mercado de Capitais

Quem falou

A seguir neste palco

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

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