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Main Stage

12/08 · 18h20–19h0040 min de sessãoresumo em 7 min

Projeto-Piloto de Tokenização da ANBIMA: o que estamos construindo

O piloto previa 10 casos e recebeu 39 inscrições: 53 organizações testam emissão de debênture e gestão de fundo de ponta a ponta.

Gabriel BragaCourtnay GuimarãesLuiz PiresLuis Kronfeld

O essencial

Contexto

Última sessão do dia no Main Stage, com a mesa do projeto-piloto de tokenização da ANBIMA — painel com Luiz Pires (ANBIMA), Luis Kronfeld (BTG Pactual), Gabriel Braga (VERT Capital) e Courtnay Guimarães (Bradesco). O ponto de partida do projeto: cada casa tokenizava de um jeito e os balcões não se falavam. O que as casas estão aprendendo no piloto ocupou o resto da hora, e a conversa foi menos sobre tecnologia e mais sobre coordenação, padrão e papéis.

A sessão em detalhe

Abertura

Cada um tokenizava de um jeito, e os balcões não se falavam

Última sessão do dia no Main Stage. A abertura contou de onde veio o projeto: um grupo de associados bateu à porta da ANBIMA dizendo que tokenização era o futuro do mercado, e que ninguém conseguia conversar com ninguém. Cada casa tinha seu balcão, seu processo e sua tecnologia; faltava padrão, faltava estrutura e sobrava dificuldade para promover liquidez.

O produto da casa é o ambiente pré-competitivo

A ANBIMA foi descrita como o lugar onde gente que se pegaria no soco na rua senta e conversa de forma civilizada. O grupo de trabalho aberto reuniu, na época, de 50 a 60 entidades.

Três perguntas organizaram a conversa

Quais desafios levaram a estruturar a agenda; como se dá a migração do mercado tradicional para o de ativos tokenizados; e como ficam papéis e responsabilidades no novo modelo.

Provar, testar e listar o que falta

Primeiro provar que a tecnologia atende ao arcabouço regulatório brasileiro. Depois testar se o mercado está pronto para entregar produtos com ela. Por fim, ver o que falta construir.

Três moleques no quintal de garagem com internet disponível e meia dúzia de vídeo no YouTube... emite um token se quiser.

Em produção

O piloto previa 10 casos e recebeu 39 inscrições

O piloto testa duas coisas: a emissão de uma debênture e a criação e gestão de um fundo. Gestão de fundo, frisou-se, e não tokenização de cota. A previsão inicial era juntar uns 10 casos de uso; chegaram 39 inscrições e o projeto teve que dobrar de tamanho no meio do caminho.

53 organizações, entre casos individuais e consórcio

Um dos consórcios tem oito empresas: uma emite a debênture, outra faz a gestão do fundo que compra o papel, e depois vêm o secundário e o secundário do secundário.

Vinte casos em teste, os mais maduros

Dos 39 inscritos, o piloto está testando 20 hoje, os mais próximos daquilo que o mercado já estava preparado para entregar.

A entrega é a evidência, não o produto

A saída do piloto é dizer ao mercado o que funcionou e o que não funcionou, compartilhar modelos de contratos já desenvolvidos e subsidiar a atividade regulatória.

Doze encontros de capacitação já feitos

A capacitação durou doze semanas e doze encontros. A emissão e a gestão começam nas próximas semanas, e a ANBIMA quer consolidar e compartilhar o aprendizado até o fim do ano.

O que trava

Coordenar cinquenta players para falar uma opinião só

O BTG Pactual estruturou a frente de tokenização da casa há poucos meses e entrou no piloto com uma leitura direta do que está em jogo: o valor do projeto está em buscar padronização e gerar insumos para decisões futuras, só que isso traz junto um problema gigante de coordenação, com entidades que precisam convergir para falar uma coisa só.

Quem nasceu na tokenização enxerga outro mercado

A visão de para onde o mercado deveria ir é diferente entre quem trabalhou dentro da tokenização e uma instituição como Bradesco ou BTG. O projeto tenta convergir isso num caminho único.

A tokenização avançou fragmentando o mercado

A tokenização permitiu fazer muita coisa nos últimos anos, mas fragmentou o mercado: o que foi feito ficou restrito à plataforma em que foi feito.

Blockchain coordena quem não confia; a ANBIMA também

A blockchain é, antes de tudo, tecnologia de coordenação entre jogadores que não necessariamente se confiam — e a ANBIMA já traz esse mesmo ambiente de coordenação para fora da rede.

O nivelamento veio antes do padrão

A mesa juntou níveis muito diferentes de expertise em blockchain com muita expertise em mercado de capitais. Nivelar esse conhecimento foi apontado como o ponto principal.

Chegando a uma opinião única para a gente conversar com o regulador, que é um dos principais objetivos que a gente tem aqui dentro desse projeto.

Onde concordaram

Ninguém prometeu desintermediação: cada papel continua

A pergunta do meio da sessão foi como se sai de um trilho tradicional de 20 ou 30 anos para a nova tecnologia. A resposta veio por uma história do próprio projeto: o fluxo de emissão de debêntures foi levado a uma reunião como se estivesse pronto e voltou com a informação de que estava tudo errado — o melhor que se podia ouvir naquela altura. Foram seis meses até a publicação sobre emissão de debêntures e fundos ficar de pé.

Função regulatória: o nome que o grupo deu

Tudo que hoje é desempenhado por alguém existe para proteger: garantir que a pessoa é titular do ativo, que tem autorização para emitir. Parte pode ir para a tecnologia, parte para os contratos.

Stricto sensu, só o emissor seria essencial

No rigor, o emissor talvez seja a única parte primordial, mais um agente fiduciário representando o investidor final. Para o resto, a obrigatoriedade ainda é assunto a discutir com o regulador.

As travas podem morar no smart contract

Permissionamento, travas e autorizações podem ser delegados ao próprio contrato, sem tirar da mesa gestor, administrador e agente fiduciário: seguem sendo ativos regulados.

A tese

A conciliação vira propriedade da infraestrutura

A sessão puxou o fio até o que a blockchain traz de fato. Hoje não existe uma infraestrutura única coordenando o ciclo de vida de um fundo: há um ledger para o ativo, outro para o passivo, o pagamento passa por outra infraestrutura e a lógica de compliance é coordenada inteiramente off-chain. Daí sai a conciliação, tratada na mesa como um dos principais problemas do mercado de capitais.

Token é o ativo, não a representação dele

É essa distinção que faz a blockchain deixar de ser mais um intermediário e passar a exercer papel de infraestrutura de mercado, com controle de titularidade e liquidação sem risco de contraparte.

Padrão mínimo sim, regra de rede não

Um padrão mínimo para que as diversas empresas construam suas aplicações de forma previsível é supervalioso. Criar padronização no nível da rede, ao contrário, foi chamado de tiro no pé.

Nem tudo cabe no trilho novo

A infraestrutura atual continua existindo por um propósito de escala. O netting apareceu como exemplo de operação que, na blockchain, não faz nem sentido.

Ferrovia e rodovia, não uma no lugar da outra

A rodovia deu graus de liberdade que o trilho não dava, com trânsito e acidentes junto, e criou restaurante de beira de estrada, hotel e cidade onde a ferrovia não passava.

Tudo isso vai coexistir no futuro. A questão é muito menos de substituir, de eliminar... entender como as coisas se integram.

A ruptura

Anunciado para três anos, entrou em produção há semanas

A sessão pôs então a velocidade no centro. A mudança humana sempre teve um ritmo; nos últimos três anos, ficou incomensurável, difícil de estruturar para mentes humanas. A blockchain já tem 20 anos de tecnologia e ainda não maturou, enquanto agentes de IA fazem em pouco tempo o que levava 60 dias de um bom desenvolvedor.

Um ano depois, a promessa da DTCC entrou no ar

Há um ano, a previsão de Nadine Chakar era que em três anos a DTCC estaria em produção, tokenizando de ponta a ponta alguns instrumentos no mercado americano. Isso entrou em produção há três semanas.

Debaixo do capô, arquitetos de informação

Não foi mágica: uma multidão de tecnologias, uma multidão de engenheiros e, principalmente, uma multidão de arquitetos de informação que padronizaram esses instrumentos.

70 mil bancos, 70 mil sistemas de conta corrente

Não precisaria haver um sistema que faz debênture no Bradesco, outro no Itaú e outro no BTG: é o mesmo sistema. O que há é a vontade da IBM de vender 70 mil instalações.

O mérito foi começar pela padronização

Projetos assim normalmente começam pelas fases mais avançadas. O piloto da ANBIMA foi desenhado ao contrário, e foi justamente isso que a mesa apontou como o grande mérito da iniciativa.

O recado

O Brasil não tem de onde copiar

No fecho, veio o argumento nacional. SPB, Pix e Open Finance do jeito que o Brasil fez não existiam lá fora, e nenhum outro lugar do mundo foi obrigado a viver a loucura financeira dos últimos 40 anos aqui. Resolvemos hiperinflação e bancarização, e somos especialistas em resolver pepino complexo. O sistema já é eficiente: o que falta agora é eficácia.

A conta da reconciliação é de bilhões de dólares

Todo mundo tem um sistema diferente, e é isso que produz a conta. Monitorar as transações dos milhares de fundos existentes, do jeito que os sistemas são feitos hoje, é impossível.

A soma das partes criou uma malha de fraude

O grau de digitalização de cada organização, somado, criou uma malha de fraude em projetos DeFi e transacionais: fraude a indivíduos e fraude estrutural. O antídoto apresentado é monitoramento atômico.

Descentralizar da instituição para a rede

A dificuldade que resta é quanto disso vai para rede aberta. Existem vários tons entre uma coisa e outra, e achar o ponto de equilíbrio à brasileira ainda vai dar trabalho.

Fazer gente brilhante e divergente convergir

Ninguém tem noção do inferno que foi chegar até aqui, e o consenso obtido foi chamado de praticamente um milagre — construído por padrões e com lições do mercado escritural.

Nunca imaginaria, nem no meu mais puro ufanismo nacionalista, que o presidente da maior economia do mundo fosse perder tempo atacando o sistema de pagamento de um país de terceiro mundo.

O que ficou

Assentado

  • O piloto recebeu 39 inscrições para uma previsão de 10 casos, testa 20 hoje e reúne 53 organizações participantes.
  • A capacitação de doze encontros terminou, e a emissão da debênture e a gestão do fundo começam nas próximas semanas.
  • A mesa não prometeu desintermediação: agente fiduciário e banco liquidante seguem com função no novo desenho.
  • A padronização foi o ponto de partida escolhido pelo projeto, e não uma fase avançada deixada para depois.

Em aberto

  • Quanto pode ser padronizado segue em disputa: regra em nível de rede foi chamada, na mesa, de tiro no pé.
  • Se funções hoje obrigatórias por regulação podem migrar para o smart contract ainda depende do regulador.
  • A revisão da norma 88 da CVM foi citada como em curso ao mesmo tempo que o piloto, sem prazo apresentado.
  • Rede aberta ou ambiente controlado não teve consenso; a mesa falou em vários tons entre um extremo e outro.

Termos citados

Tokenização de ponta a ponta
O ativo já nasce virtual e cumpre todo o ciclo de vida na rede, sem réplica no mercado tradicional.
O conceito que o piloto da ANBIMA se propôs a testar.
Função regulatória
Nome dado no grupo a toda função que existe hoje para proteger alguém dentro do processo.
Pode ir para a tecnologia, para os contratos ou seguir com atores.
Ambiente pré-competitivo
Sala em que concorrentes discutem padrão e definição sem competir entre si.
O que a ANBIMA aponta como sendo o seu produto.
Conciliação
Conferência entre registros que hoje moram em sistemas e infraestruturas diferentes.
Apontada na sessão como um dos principais problemas do mercado de capitais.
Agente fiduciário
Parte que representa o investidor final na emissão de um ativo.
Citado na mesa como quem existe por um motivo e não some com a tokenização.
Netting
Compensação de posições entre as partes antes da liquidação financeira.
Exemplo dado na sessão de operação que, na blockchain, não faz sentido.
DTCC
Infraestrutura citada como a maior de mercado de capitais do mundo, com cinco quatrilhões de dólares.
O caso dela foi usado na sessão para medir a velocidade da mudança.
T0
Liquidação no mesmo momento da operação, em vez do ciclo tradicional de D+3.
Ligado na sessão à debênture desenhada no piloto.
Marcos citados
  1. Ano passadoNo Blockchain.RIO anterior, a mesa falava de algo que ia acontecer; a ANBIMA voltou dizendo que já está acontecendo.
  2. Há três semanasA infraestrutura tokenizada que a DTCC projetava para três anos entrou em produção no mercado americano.
  3. Semana passadaTerminou a construção do desenho e o piloto passou para a fase de teste, conforme relatado na sessão.
  4. Próximas semanasComeçam a emissão da debênture e a gestão do fundo, depois de doze encontros de capacitação.
  5. Até o fim do anoPrazo que a ANBIMA deu para consolidar os aprendizados do piloto e compartilhá-los com o mercado.
  6. Ano que vemA meta declarada é voltar ao evento com os casos de uso do piloto já em produção.

Citados na sessãoANBIMA·BTG Pactual·VERT Capital·Bradesco·Itaú·CVM·DTCC·Nadine Chakar·IBM·Pix·Open Finance·SPB·Selic

TemasTokenização·Mercado de Capitais·ANBIMA·Padronização·Regulação

Quem falou

A seguir neste palco

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

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