12/08 · 10h50–11h35Criptorama in Rio45 min de sessãoresumo em 10 min
A nova geração de produtos nasce dentro do perímetro regulatório
O produto novo não é a stablecoin: é a stablecoin regulada — o que destrava a instituição tradicional é entrar no perímetro.
2023ano da entrada no Brasil, antes de a licença sairdado apresentado na sessão
1/3 do anode dinheiro parado entre feriados e horário bancáriocitado no painel
14.478a lei escrita quando o mercado ainda era de Bitcoinlei citada na sessão; numeração reconstituída
2019primeira prova de reservas, quando ninguém se importavacitado no painel
O essencial
O produto-âncora é stablecoin em cross-border
Ficou dito que o fenômeno não é exatamente uma novidade. O que muda é vê-lo se desdobrar dentro da regulação: é isso que faz a instituição tradicional, que até então não usava a tecnologia, entrar.
A entrada em ativos virtuais veio pela porta do cross-border
A norma do ano passado abriu a prestação de serviço de ativos virtuais a instituições de câmbio já reguladas, e o caminho descrito no palco foi entrar pelo mesmo perfil de cliente que já fazia cross-border. O custo apareceu no operacional: módulo de análise de cadeia, monitoramento permanente de wallet e prazo de outubro para entregar o que a licença exige.
A liquidação em blockchain já está no trilho dos pagamentos
Foi relatado no painel que a blockchain já entrou como via de liquidação nos arranjos de cartão, para que adquirentes e emissores liquidem por ali. O cenário seguinte apresentado é o comércio agêntico, com a stablecoin como possível moeda preferida do agente.
A regulação nasceu olhando Bitcoin e migrou
Quando a lei foi construída, o mercado tinha característica muito de Bitcoin, com dominância clara. A dinâmica se encaminhou para as stablecoins, hoje matéria de preocupação relevante — e a sequência já alcançou a tokenização de ouro.
Autocustódia talvez não seja para todos
A frase foi dita no palco a partir de acontecimentos recentes. No mesmo bloco, a prova de reservas apareceu como o caso oposto: ignorada em 2019, virou vantagem competitiva do setor depois de 2021 e 2022.
"A tecnologia não permite" não é argumento
O recado da indústria para a conversa com o regulador: reconhecer que o risco precisa ser mitigado e levar os controles que fazem isso, em vez de alegar impossibilidade técnica. A consulta pública é o canal onde esse desenho se refina.
Contexto
Painel do LATAM Stage, no primeiro dia do evento, com uma corretora criptonativa global, uma bandeira de pagamentos, um banco de câmbio regulado e o Banco Central na mesma mesa. A pergunta era o que vem depois do marco dos ativos virtuais, e a resposta convergiu para stablecoin em cross-border, blockchain como via de liquidação e a corrida para entrar no perímetro sem repassar ao usuário o custo da regulação. O bloco final tratou da convivência com moeda fiduciária e um eventual Drex, e de como a indústria deve conversar com o regulador.
A sessão em detalhe
Abertura
Quatro cadeiras que raramente sentam na mesma mesa
A composição do painel foi o primeiro recado do primeiro dia: uma corretora criptonativa entre as maiores do mundo, uma bandeira de pagamentos, um banco de câmbio regulado e o regulador, todos discutindo o mesmo tema. A leitura feita no palco foi de que a movimentação virou multidisciplinar — o ativo virtual deixou de ser assunto de um nicho e passou a exigir que exchange, banco, bandeira e Banco Central falem a mesma língua.
Montar a operação antes de a licença sair
Um dos caminhos contados no palco: entidade local, site, escritório, time e infraestrutura montados no Brasil em 2023, apostando que a licença sairia em 2024 — um erro de previsão sobre o ritmo do regulador, mas com diretorias de compliance e de risco já de pé quando o framework chegou. Fora daqui, licenças na Austrália e em Singapura e a entrada no regime europeu MiCA.
Do DNA de câmbio para os ativos virtuais
Outro caminho descrito: uma fintech de câmbio para pagamentos internacionais, controlada pelo Banco Santander Espanha, comprou um banco de câmbio no Brasil. O DNA de câmbio já existia; a expansão para ativos virtuais veio com a nova regulação, e hoje já se faz compra e venda de stablecoin.
Uma década construindo a ponte entre cripto e o financeiro
Também foi apresentada uma frente de moedas digitais dedicada há mais de 11 anos a conectar o mercado cripto ao mercado institucional e financeiro — dos cartões de exchange e cartões atrelados a stablecoin até a gestão das soluções de cross-border.
A tese
A novidade não é a stablecoin, é a stablecoin regulada
Perguntado o que caracteriza a nova geração de produtos, o painel convergiu rápido: o fenômeno da vez são as stablecoins para cross-border. E logo veio a ressalva que dá densidade ao ponto — isso não é necessariamente uma novidade; o interessante é ver como se desdobra agora no mundo regulado, porque é a regulação que permite às instituições tradicionais surfar a tecnologia, algo que até então elas não faziam. Ações tokenizadas apareceram como a outra tendência global, com a observação de que o Brasil dificilmente escaparia dela, mas que a conversa depende de outros reguladores, a CVM entre eles.
A segunda inovação é a menor disrupção possível
Ao lado da stablecoin, foi apontada uma inovação menos vistosa: causar a menor disrupção possível para quem entra nesse mundo regulado. Muitos processos precisam ser alterados, e o desafio é mitigar o efeito colateral da regularização sobre quem já opera.
A norma abriu a porta ao banco de câmbio
A norma do ano passado permitiu ao banco de câmbio prestar serviço de ativos virtuais. Ela já vinha em consulta pública e não havia dúvida sobre a direção — quando saiu, a movimentação foi imediata, aproveitando o mesmo perfil de cliente cross-border para distribuir stablecoin.
A eficiência que o cliente já conhece, agora instantânea
O argumento apresentado foi de sinergia, não de ruptura: o cliente com operação cross-border é o mesmo, o que muda é somar a instantaneidade e as demais eficiências que o mundo cripto tem e o mundo tradicional não tem.
Em produção
Blockchain virou moeda de liquidação dentro da bandeira
A frente de moedas digitais foi descrita como a costura entre dois mundos que antes falavam línguas diferentes: soluções criptonativas de um lado, o legado dos bancos e do mercado institucional do outro. O passo concreto relatado não é promessa: blockchain foi adicionado à infraestrutura como via de liquidação, de modo que tanto adquirentes quanto emissores possam liquidar por ali. E veio com uma admissão desarmante — a bandeira é ela mesma uma empresa tradicional, que teve de se disruptar dentro de casa antes de oferecer isso ao cliente.
Do cartão que gasta cripto ao arranjo inteiro
A escala citada vai de mudar o cartão para o usuário gastar cripto no dia a dia de forma mais fácil — cartões de exchange, cartões atrelados a stablecoin — até gerir a solução de cross-border de ponta a ponta.
O comércio agêntico e a moeda preferida do agente
Transações executadas por agentes já aparecem em casos concretos, e a leitura apresentada foi de que a stablecoin pode se tornar uma das moedas preferidas para o agente transacionar. Foi o único ponto do painel apontado como cenário em formação, e não como produto em pé.
Rompe o horário bancário, não só a taxa
O comércio já é digital, mas a movimentação do dinheiro não é. Liquidar em stablecoin quebra a janela bancária num país em que, somando feriados e expediente, o dinheiro fica parado cerca de um terço do ano.
Quando a gente adiciona liquidez nessa movimentação em stablecoin, está rompendo, disruptando o horário bancário.
Definição
De altcoin suspeita a stablecoin: a curva do regulador
A parte mais reveladora da sessão foi a reconstituição de como o regulador chegou até aqui. As primeiras manifestações partiam de uma percepção de volatilidade significativa e caráter bastante especulativo, com altcoins que não foram para frente e projetos com cara de fraude — situações desafiadoras até para nomear o que era aquele mercado. Os bancos centrais se mobilizaram de fato a partir do primeiro projeto da Meta, uma moeda específica que criou um ambiente de posicionamento mais complexo e trouxe apreensões institucionais. As pesquisas que vieram depois identificaram o brasileiro como adotante precoce desse tipo de inovação, com ativos virtuais entrando na carteira de investimento em vários segmentos sociais — demanda e oferta se organizando ao mesmo tempo.
A lei foi escrita num mercado de Bitcoin
Quando a lei foi construída, o mercado tinha característica muito de Bitcoin, com dominância clara. O que surpreendeu foi a rapidez do curso seguinte: a dinâmica se encaminhou para as stablecoins, hoje matéria de preocupação relevante, e a evolução já alcançou até a tokenização de ouro.
A fase atual é o revestimento do perímetro
O momento foi descrito como o de dar revestimento adequado às entidades que estão entrando no perímetro regulatório: governança sólida, controles e prevenção à lavagem de dinheiro, além da reputação institucional que essas empresas passam a assumir.
Regulação nasce por segmento e muda com o tempo
O paralelo apresentado foi o das instituições de pagamento e das fintechs de crédito: a primeira norma foi mudando ao longo do tempo em função de novas tecnologias, atividades e produtos. Esta primeira regulação de ativos virtuais tende a seguir o mesmo caminho.
A institucionalização, sem dúvidas, traz a segurança para que a gente possa discutir mais os temas e para que novas empresas possam explorar com mais certeza.
O que trava
Diminuir a fricção sem perder segurança é a pergunta de um milhão
O bloco mais franco da sessão foi sobre o preço que a regulação cobra da experiência do usuário. A frase que abriu a discussão foi um recuo público: autocustódia talvez não seja para todos, admitiu-se no palco a partir de acontecimentos recentes. E a leitura sobre o risco do excesso ficou clara — se a fricção sobe demais, o usuário simplesmente desiste e conclui que é complexo demais.
A prova de reservas mudou de status
O fun fact contado no palco: a primeira prova de reservas saiu em 2019 e ninguém se importou. Depois dos eventos de 2021 e 2022 virou vantagem competitiva para o setor inteiro, ao lado da segregação entre ativos da corretora e ativos do cliente.
A costura fica escondida no back-end
Boa parte do esforço de engenharia de quem opera no varejo cripto vai hoje para atender as necessidades da regulação sem que o usuário perceba. O que precisa ser costurado fica renovado no back-end — o segredo da indústria, como foi chamado no palco.
Antifraude legado mais um módulo novo
Para quem já era instituição regulada, a receita apresentada é aproveitar a estrutura antifraude e o know-how que já existiam e somar camadas: contratar um módulo adicional, uma ferramenta de análise de cadeia, fazer monitoramento permanente da wallet para quem se está vendendo. Times de tecnologia mobilizados para entregar até outubro tudo o que a licença exige.
A lição do pagamento instantâneo
Foi lembrado que o BIS já falava do risco de pagamento instantâneo em países com nível elevado de fraude — quanto mais rápido, mais difícil controlar. A resposta então não foi deixar de ter pagamento instantâneo, e sim mitigar o risco de mau uso preservando a agilidade do produto.
Diminuir a fricção sem perder a segurança — essa é a pergunta de um milhão que a gente tem hoje no mercado.
Em aberto
A convivência com um Drex passa pela jurisdição das reservas
O fecho pediu futurologia e recebeu cautela. Nos Estados Unidos, uma decisão política tirou o CBDC da discussão; no Brasil, ficou registrado que o Banco Central não parou de avançar em seus estudos internos sobre a versão digital do real. A convivência entre stablecoin, moeda fiduciária e um eventual Drex foi colocada menos como questão de tecnologia e mais como questão de jurisdição: onde está localizada a instituição emissora, onde estão as reservas, que grau de controle e de segurança jurídica existe sobre o que circula dentro do país — inclusive no Judiciário.
Nem todo emissor tem a segurança que aparenta
Foi levantada a dúvida sobre projetos que talvez não tenham a segurança que procuram apresentar, comparados às instituições reguladas que também podem emitir esse ativo. Daí a questão do alinhamento de incentivos, que precisa acontecer também no caso das stablecoins.
A digitalização da moeda já teve outras rodadas
Moeda eletrônica, contas digitais: a leitura apresentada foi de que já houve outras revoluções nesse mesmo eixo, e que este parece um passo seguinte da sequência — o que pede cuidado para não se deixar embriagar por projetos que apanharam pelo caminho.
A convivência é o que permitiu chegar até aqui
Do lado da indústria veio a contrapartida: a convivência entre a versão digital e o que já existia antes é fundamental, e foi o aperfeiçoamento da regulação somado às melhores práticas do setor que permitiu chegar a este ponto.
O recado
"Não pode porque a tecnologia não permite" não é argumento
O painel terminou com um manual de conversa entre indústria e regulador, dito dos dois lados da mesa. Do lado do mercado: existem riscos legítimos, a indústria tem o conhecimento técnico e associações que levam os argumentos, e o caminho é reconhecer que o risco precisa ser mitigado de alguma forma e apresentar os controles que fazem isso — nunca responder que não dá porque a tecnologia não permite. Do lado do regulador, ficou o registro de que a consulta pública existe exatamente para esse fim: estudar o tema, formar uma percepção, publicar e abrir para o mercado refinar elementos da norma, com análise de impacto regulatório exigida pela legislação.
Vetar a transferência não era o melhor caminho
O exemplo usado foi o das manifestações da indústria indicando que havia solução em blockchain capaz de mitigar o risco apontado pelo Banco Central, sem precisar de uma medida de impacto tão forte quanto proibir a transferência.
A consulta que ganhou intensidade e chegou ao Congresso
Uma das consultas surpreendeu pela intensidade do debate e acabou desaguando no Congresso Nacional. O registro feito no palco foi de que aquele não era o lugar nem o momento: a discussão cabia dentro da própria consulta pública, que é onde se endereça o problema regulatório.
Nenhuma consulta em curso no momento da sessão
Perguntado sobre os próximos movimentos, o palco não antecipou nada e registrou que, naquele momento, não havia consulta pública aberta — o diálogo com o mercado continua, mas sem prazo anunciado para a próxima rodada.
Não pode porque a tecnologia não permite — isso não é argumento. É levar os controles que a gente tem.
O que ficou
Assentado
A mesa convergiu em que o produto-âncora da nova geração é a stablecoin para cross-border, e que o divisor de águas é a entrada no mundo regulado.
Blockchain já foi adicionado como via de liquidação dentro da infraestrutura da bandeira, para adquirentes e emissores.
A norma do ano passado permitiu ao banco de câmbio prestar serviço de ativos virtuais, e a compra e venda de stablecoin já está de pé.
A fase atual da regulação é trazer as entidades para dentro do perímetro com governança sólida, controles e prevenção à lavagem de dinheiro.
Em aberto
Ações tokenizadas foram tratadas como tendência global inevitável, mas dependem de outros reguladores no Brasil, a CVM entre eles, e nenhum prazo foi dado.
O futuro do Drex ficou sem contorno: os estudos internos continuam, mas não se disse quando, em que formato nem com que escopo.
Como tratar a jurisdição de emissão e das reservas de stablecoins estrangeiras que circulam no país segue como questão relevante e sem resposta.
Nenhuma consulta pública estava aberta no momento da sessão, e os próximos movimentos regulatórios não foram antecipados.
Termos citados
Stablecoin
Criptoativo atrelado a um valor de referência, usado para mover dinheiro sem a oscilação típica dos demais criptoativos.
Apontada como o produto-âncora da nova geração, sobretudo em cross-border, e como matéria de preocupação relevante do regulador.
Cross-border
Operação de pagamento ou câmbio entre países, onde estão o custo e a demora que a stablecoin promete cortar.
É o caso de uso apresentado como o mais maduro, e o que fez o banco de câmbio entrar em ativos virtuais com o mesmo perfil de cliente.
Prova de reservas
Demonstração pública, feita direto na blockchain, de que a corretora tem em custódia os ativos que diz ter dos clientes.
Ignorada em 2019; depois de 2021 e 2022 virou vantagem competitiva e entrou na conversa com o regulador.
Autocustódia
Arranjo em que o próprio usuário guarda as chaves dos seus criptoativos, sem intermediário responsável pela custódia.
Foi objeto do recuo mais franco da sessão: talvez não seja para todos, a partir de acontecimentos recentes.
Comércio agêntico
Transações executadas por agentes de software em nome do usuário, sem que uma pessoa aperte o botão de compra.
Apresentado como o cenário em que a stablecoin pode virar uma das moedas preferidas do agente para transacionar.
Consulta pública
Etapa em que o regulador publica sua proposta e coleta manifestações do mercado antes de fechar a norma.
Exigida pela legislação junto da análise de impacto regulatório; uma delas ganhou tanta intensidade que chegou ao Congresso Nacional.
Marcos citados
2019Sai a primeira prova de reservas citada no palco — e, na lembrança da sessão, ninguém se importava com o assunto.
2021-2022Os eventos do mercado nesses dois anos transformam prova de reservas e segregação de ativos em vantagem competitiva do setor.
2023Entidade, escritório, time e infraestrutura próprios montados no Brasil antes de a licença sair — a aposta relatada no palco era que ela viria em 2024.
Ano passadoSai a norma que permite ao banco de câmbio prestar serviço de ativos virtuais, depois de passar por consulta pública.
OutubroPrazo citado no palco para entregar tudo o que a licença exige, com times de tecnologia inteiros mobilizados.
Citados na sessãoOKX·Visa·Banco Central·Banco Ebury·Banco Santander Espanha·CVM·Meta·BIS·MiCA·ABcripto·Congresso Nacional·Drex·Bitcoin