12/08 · 11h40–12h25Criptorama in Rio45 min de sessãoresumo em 9 min
Tokenização não resolve tudo: o que trava é a interoperabilidade
A mesa concordou nos ganhos — 24 por 7, global, fracionado — e no limite: o gargalo é juntar dois mundos, não tokenizar mais um ativo.
5 milhõesde brasileiros já expostos a ativo virtualpesquisas citadas no painel
5ºmaior país do mundo em adoção de ativo virtualdado apresentado na sessão · Brasil
325 milhõesde usuários na plataforma citada no palcodado apresentado na sessão
R$ 1é a posição mínima citada no produto fracionadocitado no painel · ticket de entrada
CS
O essencial
Os ganhos concretos são 24 por 7 e globalização
A justificativa dada para tokenizar não foi a tecnologia: foi o que o mercado tradicional não faz. Ele não opera todos os dias nem em todos os países, e o que funciona no Brasil deveria funcionar em qualquer lugar.
A adoção chegou antes da regra
O Brasil foi apresentado como quinto maior país do mundo em adoção de ativo virtual, com mais de 5 milhões de brasileiros expostos — e essa exposição aconteceu muito antes de existir regulação específica.
Não adianta tokenizar se não há para quem distribuir
Do lado da infraestrutura, a tese foi que a grande discussão da tokenização é distribuição: ligar emissores, ambientes de negociação e base de usuários sob operação licenciada. Liquidação atômica e 24 por 7 entram como consequência do trilho, não como o produto que se vende.
Convivência longa, não substituição
A resposta sobre substituição foi de dois mercados rodando juntos por um bom tempo. O obstáculo nomeado foi o custo da inércia: cada participante tem o próprio sistema e já sabe como aquele sistema funciona.
O gargalo é interoperabilidade, não tecnologia
Quem opera na camada de distribuição descreveu o problema real: liquida-se de um lado e o dinheiro fica preso, porque a outra ponta precisa receber e o banco está fechado. Sobram cut-off e bolsão de dinheiro parado.
Tokenizar não ensina ninguém a investir
Ficou dito que a tokenização não resolve problema que já existe e pode até piorar no primeiro momento: além do que já não entende, o investidor passa a ter mais uma camada para entender por cima.
Contexto
Painel do LATAM Stage com Thiago Sarandy (Binance), Gabriela Trevisan (BTG Pactual), Lourenço Brasil (Coinbase), Lucas Anselmo (Nomad) e um representante da CVM na bancada — e com desculpas pelo atraso pedidas no próprio palco. A conversa começou pelo básico, por que tokenizar, e terminou no que a tokenização não faz: o mercado tradicional não opera 24 horas nem globalmente, mas juntar banco fechado, cut-off e prevenção à lavagem com rede pública continua sendo o problema em aberto. As falas chegaram por tradução simultânea ao vivo, então nada aqui é atribuído individualmente.
A sessão em detalhe
Abertura
O mercado fecha às seis; o dinheiro não deveria
A primeira pergunta do painel foi a mais simples possível: por que tokenizar? A resposta oferecida não partiu da tecnologia, e sim do que o mercado tradicional não faz — ele não opera 24 horas por dia, sete dias por semana, e não opera globalmente. Se um ativo funciona no Brasil, deveria funcionar em qualquer país e em qualquer dia; a dificuldade de investir aqui passaria por uma burocracia que, ficou dito, não deveria existir. Daí vem a dor, e da dor vem a necessidade — que, por se tratar de valor mobiliário, passa obrigatoriamente por regulação.
Se só funciona aqui, talvez seja o caso de revisar
O critério proposto foi esse: o ativo que funciona no Brasil deveria funcionar em todos os países e todos os dias. Foi assim que a mesa amarrou 24 por 7 e globalização como os dois ganhos concretos da tokenização.
Existe uma competição entre mercados por capital
A disputa foi colocada em termos diretos: qual mercado tem mais capital e mais liquidez. O Brasil precisaria ser capaz de permitir que seu público acesse o que já é oferecido no mundo inteiro — e que o investidor global compre ativo brasileiro.
Por que tokenizar? Porque o mercado tradicional hoje não funciona 24 por 7 e não funciona globalmente. O que funciona no Brasil deveria funcionar em todos os países.
Os números
Cinco milhões de brasileiros entraram antes de existir regra
Os números apresentados serviram a um argumento único: o apetite não precisa ser criado, ele já está lá. A plataforma citada tem mais de 325 milhões de usuários e mais de 34 trilhões de dólares negociados só no ano passado; o Brasil já seria o quinto maior país do mundo em adoção de ativo virtual, e pesquisas recentes indicariam mais de 5 milhões de brasileiros expostos. O ponto forte da fala não foi o tamanho, foi a ordem: essa exposição aconteceu muito antes de haver regulação, notícia boa e má ao mesmo tempo.
Ação brasileira tokenizada como porta de entrada
O caminho natural apontado foi tokenizar ações brasileiras para que o investidor global consiga comprar Brasil de onde estiver. O mesmo raciocínio foi estendido a outros ativos locais, com o mercado imobiliário citado como candidato.
Escala só dentro do perímetro do que é permitido
A ressalva veio junto com o número: há fome global para fazer o negócio acontecer, mas o caminhar tem que ser dentro de um perímetro de segurança — o que é permitido, o que não é e de que forma tem de funcionar.
A tese
No fundo, a grande discussão da tokenização é distribuição
Do lado da infraestrutura, a apresentação separou dois fundamentos: infraestrutura e acesso ao mercado. A credencial exposta foi a de operação licenciada em vários países — Brasil, Estados Unidos, Europa via MiCA e MiFID, Reino Unido —, custódia, a maior L2 da camada e a condição de primeira empresa cripto de capital aberto do mundo, sujeita a disclosures. O que essa infraestrutura entrega foi resumido em liquidação atômica e negociação contínua, com a liquidez concentrada em vez de espalhada. Mas o desfecho da tese não ficou na tecnologia: não adianta tokenizar se não há para quem distribuir.
O papel é de conexão entre as três pontas
Emissores, ambientes de negociação e base de usuários: a função descrita foi ligar essas pontas com segurança regulatória, não emitir mais um ativo. É por isso que a base de usuários apareceu como o ativo central da plataforma.
Liquidação atômica e mercado que não fecha
Os dois efeitos citados como próprios do trilho tokenizado: entrega e pagamento no mesmo instante, e negociação 24 por 7 em ambientes que vão se unificando em vez de fragmentar a liquidez.
Tecnologia é a parte fácil; o efeito é o acesso
A separação feita no palco foi entre a criptografia, que é o pedaço técnico, e o acesso ao mercado, que é onde o efeito aparece — clientes cada vez mais unificados e alcançando ativos do mundo inteiro.
A grande discussão da tokenização, no fundo, vai ser sobre distribuição.
Onde concordaram
O guichê fechava às seis — e o regulador se adaptou uma vez
Posta a pergunta sobre substituição — o mercado tokenizado tomaria o lugar do tradicional? —, a resposta foi convivência: os dois vão rodar juntos, e por um bom tempo. O obstáculo nomeado não foi técnico, foi o custo da inércia — hoje cada participante tem o próprio sistema, o próprio jeito de fazer, e todo mundo já conhece como as coisas funcionam ali dentro. Imaginar um futuro em que todos migram para o mesmo trilho foi tratado como muito difícil; a forma realista de encarar seria a coexistência entre ativo tradicional e ativo tokenizado, que com o tempo pode mudar de proporção.
O precedente do documento físico na CVM
Houve um tempo em que se protocolava documento em papel no guichê, que fechava às seis, e alguém corria para entregar o último. Isso deixou de existir: os reguladores se adaptaram e passaram a adotar uma estrutura digital inteira.
O GT existe para testar o que o mercado já faz
O grupo de trabalho de tokenização foi descrito como ambiente para repensar as responsabilidades dos participantes e para pegar o que eles já estão fazendo, testar, e voltar atrás se não funcionar — sem carregar o risco para dentro da norma.
Baby steps antes de mexer na estrutura
A expressão usada foi essa: ajustes pequenos, um aqui e outro ali, a partir de um diálogo aberto para entender as dores de cada projeto — em vez de uma mudança global na estrutura regulatória de uma só vez.
Se começarmos a mudar toda a estrutura da regulação diretamente, isso já envolve mais riscos para o regulador e mais complexidade. Então é melhor termos esse ambiente de teste.
O que trava
Liquida de um lado e o dinheiro fica preso porque o banco fechou
O contraponto prático veio de quem já opera essa ponte. Uma empresa nascida cinco anos atrás montou acesso a ativos de investimento global quando a infraestrutura que hoje se discute simplesmente não existia — era tudo mato. O desafio descrito não é tecnológico: é interoperabilidade, e em várias camadas. Na camada financeira, o exemplo dado foi direto: liquida-se de um lado e o dinheiro fica preso, porque a outra ponta precisa recebê-lo e o banco está fechado; sobram cut-off times e um bolsão de dinheiro parado por cliente.
Os dois mundos são bem resolvidos — separados
Cada um tem suas particularidades, seu jeito de operar e seu jeito de fazer compliance. Só que, na hora de juntar, os dois parecem perder alguma coisa — e é aí que os protótipos tropeçam.
Rastreabilidade que o mundo tradicional não consegue
Quem opera em DeFi tem uma rastreabilidade de transação impossível de reproduzir no sistema tradicional. O problema é que ela ainda é incompatível com os processos e políticas de prevenção à lavagem do outro lado da ponte.
Sem convergência, o mercado se parte em dois
Se os tempos e os processos não conversarem, o caminho invariável é dois conjuntos de empresas — as do tokenizado e as de DeFi — em vez de um mercado só. Foi descrito como o desfecho que não deveria acontecer.
Vou liquidar e meu dinheiro fica preso, porque preciso entregar na outra ponta e o banco está fechado.
Onde divergiram
Tokenizar educa o investidor ou só empilha mais uma camada?
A mesa não fechou no ponto seguinte: nada disso se resolve só porque se colocou na jogada uma palavra nova, bonita e sexy. Ficou a pergunta — no Brasil, as pessoas sabem em que estão investindo e por quê? Nem sempre. A resposta mais dura foi que a tokenização não resolve problema que já existe — tokenizar título público ou crédito privado não faz ninguém entender liquidez e risco — e que, num primeiro momento, pode até piorar, porque além do que já não entende o investidor passa a ter mais uma camada para entender por cima. O outro lado da mesa não negou o diagnóstico, mas devolveu com alcance: o público que o cripto atinge é maior que o do mercado financeiro tradicional.
O ativo carregando a própria informação
O contraponto técnico: hoje, para entender um ativo, você vai ao site e encontra um PDF duro de consumir. O token permitiria a informação trafegar junto, padronizada e estruturada, nascendo já na emissão em vez de ser buscada depois.
Nível de risco já tem precedente na regra
Classificação de risco por produto e níveis diferentes, como já existe para BDR, foram lembrados como parâmetro de proteção pronto: o investidor sabe em que nível está pisando antes de comprar.
R$ 1 contra a barreira de entrar numa bolsa
O jovem que chegou pelo videogame, o ticket que cabe no bolso e a gamificação foram apresentados como a via real de entrada: posição a partir de um real. O mercado financeiro é que teria de se moldar a essa realidade e estar no dia a dia dessas pessoas.
O 24 por 7 também cria risco novo
Ficou também a ressalva: fora do horário do mercado organizado, o spread pode machucar o investidor. Negociação contínua não é só poder comprar a qualquer hora, é também proteção e fuso horário para resolver.
A tokenização não vai resolver problemas que já existem. Num primeiro momento pode piorar: além do que ele já não sabe, vai ter que entender mais uma coisa por cima.
O recado
O usuário não precisa saber que tem uma blockchain atrás
O fechamento juntou as duas pontas do painel. Unificar TradFi e cripto de forma simplificada é melhor do que complicar, e o desafio declarado foi deixar o caminho tão curto e tão bem feito que o usuário nem perceba que havia uma blockchain ali atrás: o interesse dele em aprender como a tecnologia funciona é mínimo, e o benefício que ela traz é muito superior. Na mesma linha veio o recado sobre educação financeira — ela importa, sem dúvida, mas o que pesa mais é ter empresas oferecendo produtos fáceis, simples e bons. O brasileiro deixa dinheiro no banco porque é fácil e ele saca na hora que quer.
Rede pública é rastreável — e isso serve ao regulador
Contra o preconceito de que cripto favorece o crime, veio o argumento inverso: endereço sinalizado por autoridade entra em blacklist nas exchanges e não vira dinheiro de verdade. E o regulador consulta a rede aberta em vez de pedir informação e receber cinquenta planilhas e três e-mails.
Aplicar na sexta e sacar no domingo
O produto de rendimento citado foi o exemplo de 24 por 7 virando produto em vez de slogan: o dinheiro rende todo dia, o valor é visível todo dia e o resgate não espera dois dias úteis.
Nem tudo precisa — nem vai — ser tokenizado
Foi anunciado no palco o acesso a ações americanas dentro do aplicativo nas próximas semanas, com pagamento de dividendos, por um modelo de trust em corretora já estipulado pela CVM. Serviu de prova do próprio ponto: distribuição e interesse resolvem sem token quando é o caso.
A tokenização não é a solução de todos os problemas. Os benefícios são estes: 24 por 7 e globalização.
O que ficou
Assentado
Mercado tradicional e mercado tokenizado vão conviver por um bom tempo — substituição não estava no horizonte de ninguém na mesa.
O GT de tokenização foi apresentado como ambiente de teste com os participantes, com ajustes em baby steps antes de mexer na estrutura da regulação.
O gargalo prático nomeado foi interoperabilidade: cut-off de banco, dinheiro parado entre as pontas e prevenção à lavagem operando de formas diferentes nos dois mundos.
Houve consenso de que a tokenização não resolve problema pré-existente do investidor; os ganhos concretos citados são 24 por 7, globalização e fracionamento.
Foi anunciado acesso a ações americanas no aplicativo nas próximas semanas, com pagamento de dividendos, por modelo de trust em corretora estipulado pela CVM.
Em aberto
Nenhum prazo ou escopo foi dado para as mudanças que o GT poderia levar à estrutura regulatória.
Como conciliar a rastreabilidade on-chain com os processos de prevenção à lavagem do sistema bancário foi apontado como problema, sem solução apresentada.
Se a informação padronizada carregada pelo token substitui na prática o PDF da oferta — e sob que regra — não foi respondido.
Quanto do mercado brasileiro seria tokenizado e quais ativos entram nessa fila ficou em aberto: a própria mesa disse que nem tudo precisa nem vai ser tokenizado.
Termos citados
GT de tokenização
Grupo de trabalho do regulador criado para repensar responsabilidades dos participantes e testar mudanças antes de alterar a estrutura da regulação.
Apresentado como ambiente de baby steps, com diálogo aberto e menos risco para o regulador.
Liquidação atômica
Troca em que a entrega do ativo e o pagamento acontecem no mesmo instante, sem janela aberta entre as duas pontas.
Citada como fundamento da infraestrutura tokenizada, ao lado da negociação 24 por 7.
Interoperabilidade
Capacidade de dois sistemas — banco tradicional e redes — operarem juntos: tempos, processos, políticas e compliance conversando.
Apontada no painel como o gargalo real, acima de qualquer limitação de tecnologia.
Cut-off time
Horário-limite depois do qual o banco não processa mais movimentações naquele dia.
Obriga a deixar um bolsão de dinheiro parado por cliente enquanto a outra ponta não liquida.
Modelo de trust em corretora
Estrutura já estipulada pela CVM em que os ativos ficam sob trust numa corretora e o investidor local acessa por ali.
É por ele que o acesso a ações americanas foi anunciado, com pagamento de dividendos — sem tokenizar nada.
MiCA e MiFID
Arcabouços europeus sob os quais uma plataforma pode operar cripto e valores mobiliários de forma licenciada.
Citados na lista de licenças apresentada no palco, ao lado de Brasil, Estados Unidos e Reino Unido.
Marcos citados
Há 5 anosUma das empresas representadas na mesa nasce e monta acesso a ativos de investimento global num momento em que a infraestrutura hoje discutida no palco ainda não existia.
Nas próximas semanasAções americanas passam a ser acessíveis no aplicativo, com pagamento de dividendos, por um modelo de trust em corretora estipulado pela CVM.
Citados na sessãoBinance·Coinbase·BTG Pactual·Nomad·CVM·Banco Central·Ethereum·MiCA·MiFID·Binance Academy·ABcripto
TemasTokenização·Mercado de capitais·CVM·Interoperabilidade·Acesso global