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LATAM Stage

12/08 · 11h40–12h25Criptorama in Rio45 min de sessãoresumo em 9 min

Tokenização não resolve tudo: o que trava é a interoperabilidade

A mesa concordou nos ganhos — 24 por 7, global, fracionado — e no limite: o gargalo é juntar dois mundos, não tokenizar mais um ativo.

Thiago SarandyGabriela TrevisanLourenço BrasilLucas AnselmoCS

O essencial

Contexto

Painel do LATAM Stage com Thiago Sarandy (Binance), Gabriela Trevisan (BTG Pactual), Lourenço Brasil (Coinbase), Lucas Anselmo (Nomad) e um representante da CVM na bancada — e com desculpas pelo atraso pedidas no próprio palco. A conversa começou pelo básico, por que tokenizar, e terminou no que a tokenização não faz: o mercado tradicional não opera 24 horas nem globalmente, mas juntar banco fechado, cut-off e prevenção à lavagem com rede pública continua sendo o problema em aberto. As falas chegaram por tradução simultânea ao vivo, então nada aqui é atribuído individualmente.

A sessão em detalhe

Abertura

O mercado fecha às seis; o dinheiro não deveria

A primeira pergunta do painel foi a mais simples possível: por que tokenizar? A resposta oferecida não partiu da tecnologia, e sim do que o mercado tradicional não faz — ele não opera 24 horas por dia, sete dias por semana, e não opera globalmente. Se um ativo funciona no Brasil, deveria funcionar em qualquer país e em qualquer dia; a dificuldade de investir aqui passaria por uma burocracia que, ficou dito, não deveria existir. Daí vem a dor, e da dor vem a necessidade — que, por se tratar de valor mobiliário, passa obrigatoriamente por regulação.

Se só funciona aqui, talvez seja o caso de revisar

O critério proposto foi esse: o ativo que funciona no Brasil deveria funcionar em todos os países e todos os dias. Foi assim que a mesa amarrou 24 por 7 e globalização como os dois ganhos concretos da tokenização.

Existe uma competição entre mercados por capital

A disputa foi colocada em termos diretos: qual mercado tem mais capital e mais liquidez. O Brasil precisaria ser capaz de permitir que seu público acesse o que já é oferecido no mundo inteiro — e que o investidor global compre ativo brasileiro.

Por que tokenizar? Porque o mercado tradicional hoje não funciona 24 por 7 e não funciona globalmente. O que funciona no Brasil deveria funcionar em todos os países.

Os números

Cinco milhões de brasileiros entraram antes de existir regra

Os números apresentados serviram a um argumento único: o apetite não precisa ser criado, ele já está lá. A plataforma citada tem mais de 325 milhões de usuários e mais de 34 trilhões de dólares negociados só no ano passado; o Brasil já seria o quinto maior país do mundo em adoção de ativo virtual, e pesquisas recentes indicariam mais de 5 milhões de brasileiros expostos. O ponto forte da fala não foi o tamanho, foi a ordem: essa exposição aconteceu muito antes de haver regulação, notícia boa e má ao mesmo tempo.

Ação brasileira tokenizada como porta de entrada

O caminho natural apontado foi tokenizar ações brasileiras para que o investidor global consiga comprar Brasil de onde estiver. O mesmo raciocínio foi estendido a outros ativos locais, com o mercado imobiliário citado como candidato.

Escala só dentro do perímetro do que é permitido

A ressalva veio junto com o número: há fome global para fazer o negócio acontecer, mas o caminhar tem que ser dentro de um perímetro de segurança — o que é permitido, o que não é e de que forma tem de funcionar.

A tese

No fundo, a grande discussão da tokenização é distribuição

Do lado da infraestrutura, a apresentação separou dois fundamentos: infraestrutura e acesso ao mercado. A credencial exposta foi a de operação licenciada em vários países — Brasil, Estados Unidos, Europa via MiCA e MiFID, Reino Unido —, custódia, a maior L2 da camada e a condição de primeira empresa cripto de capital aberto do mundo, sujeita a disclosures. O que essa infraestrutura entrega foi resumido em liquidação atômica e negociação contínua, com a liquidez concentrada em vez de espalhada. Mas o desfecho da tese não ficou na tecnologia: não adianta tokenizar se não há para quem distribuir.

O papel é de conexão entre as três pontas

Emissores, ambientes de negociação e base de usuários: a função descrita foi ligar essas pontas com segurança regulatória, não emitir mais um ativo. É por isso que a base de usuários apareceu como o ativo central da plataforma.

Liquidação atômica e mercado que não fecha

Os dois efeitos citados como próprios do trilho tokenizado: entrega e pagamento no mesmo instante, e negociação 24 por 7 em ambientes que vão se unificando em vez de fragmentar a liquidez.

Tecnologia é a parte fácil; o efeito é o acesso

A separação feita no palco foi entre a criptografia, que é o pedaço técnico, e o acesso ao mercado, que é onde o efeito aparece — clientes cada vez mais unificados e alcançando ativos do mundo inteiro.

A grande discussão da tokenização, no fundo, vai ser sobre distribuição.

Onde concordaram

O guichê fechava às seis — e o regulador se adaptou uma vez

Posta a pergunta sobre substituição — o mercado tokenizado tomaria o lugar do tradicional? —, a resposta foi convivência: os dois vão rodar juntos, e por um bom tempo. O obstáculo nomeado não foi técnico, foi o custo da inércia — hoje cada participante tem o próprio sistema, o próprio jeito de fazer, e todo mundo já conhece como as coisas funcionam ali dentro. Imaginar um futuro em que todos migram para o mesmo trilho foi tratado como muito difícil; a forma realista de encarar seria a coexistência entre ativo tradicional e ativo tokenizado, que com o tempo pode mudar de proporção.

O precedente do documento físico na CVM

Houve um tempo em que se protocolava documento em papel no guichê, que fechava às seis, e alguém corria para entregar o último. Isso deixou de existir: os reguladores se adaptaram e passaram a adotar uma estrutura digital inteira.

O GT existe para testar o que o mercado já faz

O grupo de trabalho de tokenização foi descrito como ambiente para repensar as responsabilidades dos participantes e para pegar o que eles já estão fazendo, testar, e voltar atrás se não funcionar — sem carregar o risco para dentro da norma.

Baby steps antes de mexer na estrutura

A expressão usada foi essa: ajustes pequenos, um aqui e outro ali, a partir de um diálogo aberto para entender as dores de cada projeto — em vez de uma mudança global na estrutura regulatória de uma só vez.

Se começarmos a mudar toda a estrutura da regulação diretamente, isso já envolve mais riscos para o regulador e mais complexidade. Então é melhor termos esse ambiente de teste.

O que trava

Liquida de um lado e o dinheiro fica preso porque o banco fechou

O contraponto prático veio de quem já opera essa ponte. Uma empresa nascida cinco anos atrás montou acesso a ativos de investimento global quando a infraestrutura que hoje se discute simplesmente não existia — era tudo mato. O desafio descrito não é tecnológico: é interoperabilidade, e em várias camadas. Na camada financeira, o exemplo dado foi direto: liquida-se de um lado e o dinheiro fica preso, porque a outra ponta precisa recebê-lo e o banco está fechado; sobram cut-off times e um bolsão de dinheiro parado por cliente.

Os dois mundos são bem resolvidos — separados

Cada um tem suas particularidades, seu jeito de operar e seu jeito de fazer compliance. Só que, na hora de juntar, os dois parecem perder alguma coisa — e é aí que os protótipos tropeçam.

Rastreabilidade que o mundo tradicional não consegue

Quem opera em DeFi tem uma rastreabilidade de transação impossível de reproduzir no sistema tradicional. O problema é que ela ainda é incompatível com os processos e políticas de prevenção à lavagem do outro lado da ponte.

Sem convergência, o mercado se parte em dois

Se os tempos e os processos não conversarem, o caminho invariável é dois conjuntos de empresas — as do tokenizado e as de DeFi — em vez de um mercado só. Foi descrito como o desfecho que não deveria acontecer.

Vou liquidar e meu dinheiro fica preso, porque preciso entregar na outra ponta e o banco está fechado.

Onde divergiram

Tokenizar educa o investidor ou só empilha mais uma camada?

A mesa não fechou no ponto seguinte: nada disso se resolve só porque se colocou na jogada uma palavra nova, bonita e sexy. Ficou a pergunta — no Brasil, as pessoas sabem em que estão investindo e por quê? Nem sempre. A resposta mais dura foi que a tokenização não resolve problema que já existe — tokenizar título público ou crédito privado não faz ninguém entender liquidez e risco — e que, num primeiro momento, pode até piorar, porque além do que já não entende o investidor passa a ter mais uma camada para entender por cima. O outro lado da mesa não negou o diagnóstico, mas devolveu com alcance: o público que o cripto atinge é maior que o do mercado financeiro tradicional.

O ativo carregando a própria informação

O contraponto técnico: hoje, para entender um ativo, você vai ao site e encontra um PDF duro de consumir. O token permitiria a informação trafegar junto, padronizada e estruturada, nascendo já na emissão em vez de ser buscada depois.

Nível de risco já tem precedente na regra

Classificação de risco por produto e níveis diferentes, como já existe para BDR, foram lembrados como parâmetro de proteção pronto: o investidor sabe em que nível está pisando antes de comprar.

R$ 1 contra a barreira de entrar numa bolsa

O jovem que chegou pelo videogame, o ticket que cabe no bolso e a gamificação foram apresentados como a via real de entrada: posição a partir de um real. O mercado financeiro é que teria de se moldar a essa realidade e estar no dia a dia dessas pessoas.

O 24 por 7 também cria risco novo

Ficou também a ressalva: fora do horário do mercado organizado, o spread pode machucar o investidor. Negociação contínua não é só poder comprar a qualquer hora, é também proteção e fuso horário para resolver.

A tokenização não vai resolver problemas que já existem. Num primeiro momento pode piorar: além do que ele já não sabe, vai ter que entender mais uma coisa por cima.

O recado

O usuário não precisa saber que tem uma blockchain atrás

O fechamento juntou as duas pontas do painel. Unificar TradFi e cripto de forma simplificada é melhor do que complicar, e o desafio declarado foi deixar o caminho tão curto e tão bem feito que o usuário nem perceba que havia uma blockchain ali atrás: o interesse dele em aprender como a tecnologia funciona é mínimo, e o benefício que ela traz é muito superior. Na mesma linha veio o recado sobre educação financeira — ela importa, sem dúvida, mas o que pesa mais é ter empresas oferecendo produtos fáceis, simples e bons. O brasileiro deixa dinheiro no banco porque é fácil e ele saca na hora que quer.

Rede pública é rastreável — e isso serve ao regulador

Contra o preconceito de que cripto favorece o crime, veio o argumento inverso: endereço sinalizado por autoridade entra em blacklist nas exchanges e não vira dinheiro de verdade. E o regulador consulta a rede aberta em vez de pedir informação e receber cinquenta planilhas e três e-mails.

Aplicar na sexta e sacar no domingo

O produto de rendimento citado foi o exemplo de 24 por 7 virando produto em vez de slogan: o dinheiro rende todo dia, o valor é visível todo dia e o resgate não espera dois dias úteis.

Nem tudo precisa — nem vai — ser tokenizado

Foi anunciado no palco o acesso a ações americanas dentro do aplicativo nas próximas semanas, com pagamento de dividendos, por um modelo de trust em corretora já estipulado pela CVM. Serviu de prova do próprio ponto: distribuição e interesse resolvem sem token quando é o caso.

A tokenização não é a solução de todos os problemas. Os benefícios são estes: 24 por 7 e globalização.

O que ficou

Assentado

  • Mercado tradicional e mercado tokenizado vão conviver por um bom tempo — substituição não estava no horizonte de ninguém na mesa.
  • O GT de tokenização foi apresentado como ambiente de teste com os participantes, com ajustes em baby steps antes de mexer na estrutura da regulação.
  • O gargalo prático nomeado foi interoperabilidade: cut-off de banco, dinheiro parado entre as pontas e prevenção à lavagem operando de formas diferentes nos dois mundos.
  • Houve consenso de que a tokenização não resolve problema pré-existente do investidor; os ganhos concretos citados são 24 por 7, globalização e fracionamento.
  • Foi anunciado acesso a ações americanas no aplicativo nas próximas semanas, com pagamento de dividendos, por modelo de trust em corretora estipulado pela CVM.

Em aberto

  • Nenhum prazo ou escopo foi dado para as mudanças que o GT poderia levar à estrutura regulatória.
  • Como conciliar a rastreabilidade on-chain com os processos de prevenção à lavagem do sistema bancário foi apontado como problema, sem solução apresentada.
  • Se a informação padronizada carregada pelo token substitui na prática o PDF da oferta — e sob que regra — não foi respondido.
  • Quanto do mercado brasileiro seria tokenizado e quais ativos entram nessa fila ficou em aberto: a própria mesa disse que nem tudo precisa nem vai ser tokenizado.

Termos citados

GT de tokenização
Grupo de trabalho do regulador criado para repensar responsabilidades dos participantes e testar mudanças antes de alterar a estrutura da regulação.
Apresentado como ambiente de baby steps, com diálogo aberto e menos risco para o regulador.
Liquidação atômica
Troca em que a entrega do ativo e o pagamento acontecem no mesmo instante, sem janela aberta entre as duas pontas.
Citada como fundamento da infraestrutura tokenizada, ao lado da negociação 24 por 7.
Interoperabilidade
Capacidade de dois sistemas — banco tradicional e redes — operarem juntos: tempos, processos, políticas e compliance conversando.
Apontada no painel como o gargalo real, acima de qualquer limitação de tecnologia.
Cut-off time
Horário-limite depois do qual o banco não processa mais movimentações naquele dia.
Obriga a deixar um bolsão de dinheiro parado por cliente enquanto a outra ponta não liquida.
Modelo de trust em corretora
Estrutura já estipulada pela CVM em que os ativos ficam sob trust numa corretora e o investidor local acessa por ali.
É por ele que o acesso a ações americanas foi anunciado, com pagamento de dividendos — sem tokenizar nada.
MiCA e MiFID
Arcabouços europeus sob os quais uma plataforma pode operar cripto e valores mobiliários de forma licenciada.
Citados na lista de licenças apresentada no palco, ao lado de Brasil, Estados Unidos e Reino Unido.
Marcos citados
  1. Há 5 anosUma das empresas representadas na mesa nasce e monta acesso a ativos de investimento global num momento em que a infraestrutura hoje discutida no palco ainda não existia.
  2. Nas próximas semanasAções americanas passam a ser acessíveis no aplicativo, com pagamento de dividendos, por um modelo de trust em corretora estipulado pela CVM.

Citados na sessãoBinance·Coinbase·BTG Pactual·Nomad·CVM·Banco Central·Ethereum·MiCA·MiFID·Binance Academy·ABcripto

TemasTokenização·Mercado de capitais·CVM·Interoperabilidade·Acesso global

Quem falou

A seguir neste palco

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

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