← Programação completa
GOV Stage

12/08 · 12h55–13h40Regulation Rocks - FENASBAC45 min de sessãoresumo em 6 min

Tokenizando os trilhos do core bancário: A Fronteira da Interoperabilidade Provedor-Regulador

Com Banco Central, Bradesco e Núclea na mesma mesa, a pergunta do que já roda on-chain teve uma resposta só: o gargalo não é a tecnologia, é o padrão.

Danielle TeixeiraCourtnay GuimarãesHenrique VideiraRG

O essencial

Contexto

Painel do Regulation Rocks, o palco da Fenasbac no Blockchain.RIO, com o regulador, o banco e a infraestrutura de mercado lado a lado. Em vez de futurologia, a sessão abriu pela pergunta do que já roda de verdade on-chain e onde ainda se duplica esforço. As três respostas convergiram: sem standard comum e sem interoperabilidade, tokenizar o que já é digital não troca o trilho de ninguém.

A sessão em detalhe

Abertura

Três cadeiras para a pergunta do que já roda

O painel juntou no palco o regulador, o banco e a infraestrutura de mercado: Henrique Videira, do Banco Central; Courtnay Guimarães, do Bradesco; e Ricardo Gomes, da Núclea. Ficou dito de saída que o assunto muda de ano para ano, e a pergunta veio sem futurologia: o que já roda de verdade on-chain no negócio de cada um, e onde ainda se está patinando e duplicando esforço.

Do gêmeo digital ao ativo que nasce na rede

Um ou dois anos atrás, quase toda solução de tokenização usava gêmeo digital: uma camada a mais só para registrar. Desde o ano passado a pergunta é como o ativo nasce ali, e essa é a chave do jogo.

O Bradesco monta a área de digital assets

A frente de ativos digitais do banco está sendo montada agora, com corretora, custódia e gestora — todas na plateia —, e a operação se torna pública neste mês.

A tese

Tokenizar um CDB não resolve; interoperar resolve

O diagnóstico posto na mesa é de uma transição ainda travada entre o mundo analógico e o digital, com duplicidade de sistemas e muita inconciliação pelo caminho. A stablecoin aparece como a frente que já nasce digital; o resto é o mercado tradicional olhando a tecnologia de forma mais pragmática, com uma perna de cada lado.

Um CDB já é uma linha de código

Se o ativo já é digital, tokenizar não adiciona ganho por si. O risco é sair digitalizando um monte de coisa que talvez já fosse digital e chamar isso de evolução.

O erro a não repetir: trilhos que não se falam

O mundo tradicional deixou surgir várias infraestruturas que não interoperam, e o resultado são poços de liquidez específicos que não se conhecem. O todo não cresce como poderia.

A estrutura de hoje já está cansada

As instituições começam a pensar de longo prazo a estrutura que será a oficial daqui a 5 ou 10 anos, com automação. A tecnologia atual já está desgastada para esse tipo de melhoria.

A palavra-chave aqui pra gente de fato evoluir é interoperabilidade. Esses sistemas precisam interoperar.

O que trava

O core bancário não vira blockchain por duas contas

A pergunta sobre o que será substituído — o core bancário inteiro viraria blockchain? — teve como resposta um nunca datado: neste momento, não há para onde migrar. Numa instituição bancária de padrão mundial convivem 80 mil tecnologias, e a segunda trava não é técnica, é de caixa.

Não existe blockchain: existem plataformas

O que roda em uma não roda na outra: é refazer em Solana, em Tron, em Stellar. A Canton aparece hoje com mais destaque, sem nenhuma garantia de ser o standard de fato daqui a dez anos.

Ninguém paga a conta de um core novo

Um banco sabe fazer duas coisas com excelência universal: cortar risco e cortar custo. Gastar de novo o que custou o core bancário só porque agora é em blockchain não passa na diretoria.

700 mil linhas de assembler que ninguém migrou

O contracorrente do Itaú nunca foi trocado por falta de algo que funcione tão perfeitamente — e quem escreveu o sistema, hoje vice-presidente de operações, ainda responde por ele.

O mundo financeiro é local; o novo é T+0

Banco brasileiro, regulador brasileiro, horário de Brasília e três dias para o exterior. O novo mundo liquida agora, para a China ou para qualquer lugar, e é isso que as stablecoins entregam.

Eu tenho uma frase que eu falo há 15 anos, que é: não existe blockchain. Existe TCP e IP, existe HTTP.

Onde concordaram

O padrão não é tecnológico: é acordo de mercado

Camada comum, timestamp e encadeamento

Interoperar exige definir um layer padrão, a marcação de tempo e o encadeamento de eventos. Tudo isso passa por consenso de mercado — e consenso é debate, com regulador e governo dentro.

Vai sobreviver o que for eficiente

O pagamento transfronteiriço ganha tração porque é liquidação mais eficiente, movendo informação e ativo ao mesmo tempo. Legado, mainframe e redes descentralizadas podem conviver se interoperarem.

Pergunte o que é uma debênture no Brasil

A resposta vem em pelo menos 430 versões diferentes. Padronizar o que é o instrumento não é trabalho tecnológico, e nos Estados Unidos a ISDA já fez isso com os contratos.

A padronização das regras entra junto

Ficou também o alerta de que não basta padronizar tecnologia: é preciso padronizar as regras e o campo de jogo, e trazer as áreas de compliance para dentro da conversa.

O que vai sobreviver? Na minha opinião, vai sobreviver aquilo que é eficiente.

Prova de campo

O PC venceu porque a IBM abriu mão do padrão

Por que é tão difícil fechar um padrão, se todo mundo faz mais ou menos a mesma coisa? A resposta veio pela história da tecnologia: nos anos 70 havia Commodore, TK e um punhado de máquinas proprietárias, e quem venceu foi o padrão aberto.

A IBM achava que o negócio era mainframe

Todos os concorrentes eram proprietários e patenteados. A IBM deixou copiar o PC porque considerava aquele jogo sem valor — e foi exatamente por isso que ele virou o padrão.

Cada blockchain veio com o seu token

O token atrelado à infraestrutura criou um efeito dissonante entre a tecnologia e o valor dela, e uma religião financeira: defende-se a rede em que se comprou barato. De tudo, sobreviveu o Bitcoin.

50 mil bancos não precisam de 50 mil cores

Nos anos 80 se escrevia um sistema por empresa, até a SAP dizer que contabilidade, contas a pagar e a receber são iguais em toda parte. No Bradesco e no Itaú, contabilidade é igual.

A obra tem de ser feita com o avião voando

Criticidade é o que impede a virada de uma hora para a outra: não dá para parar um banco por uma semana, fazer a reforma e religar depois. Na Casa Bradesco, o shopping saiu sem derrubar a igreja.

Quais são os gargalos? Por que que é tão difícil achar esse bendito desse padrão?

A ruptura

Do relatório do dia seguinte à supervisão online

O último movimento da mesa saiu do trilho e foi para quem fiscaliza o trilho. Hoje as operações acontecem em um dia e as instituições reportam no dia seguinte, conforme as regras estabelecidas pelos reguladores e supervisores. A leitura posta na mesa é que esse desenho caminha para acompanhamento online — e sobra a pergunta de como conectar todo mundo.

O Brasil fecha a contabilidade todo dia

Nenhum outro país manda o fechamento online ao banco central diariamente. É o detalhe simples que o estrangeiro não acredita, e o que sustenta a fama da supervisão brasileira.

As novas regras não são endurecimento

As queixas às regras transacionais do BACEN foram chamadas de infundadas: os bancos já fazem essa verificação todo dia, e o que se está fazendo é estender a mesma regra ao novo mercado.

Um nó do Banco Central em cada rede?

A pergunta que fechou a mesa: os projetos de infraestrutura de tokenização desenham o regulador com um nó na rede, mas é difícil imaginar o Banco Central ativo em cada uma das várias redes.

O que ficou

Assentado

  • Os três convergiram: o gargalo não é a tecnologia, é o padrão comum e a interoperabilidade entre as redes.
  • Não existe hoje um standard de fato capaz de substituir o core bancário; a Canton lidera em destaque, sem garantia.
  • O Bradesco está montando sua área de ativos digitais, com corretora, custódia e gestora, e torna isso público neste mês.
  • Legado, mainframe e redes descentralizadas vão conviver por um bom tempo, desde que consigam interoperar entre si.

Em aberto

  • Qual padrão prevalece, e em quanto tempo, ninguém cravou: a aposta é que vença o que ganhar tração e eficiência.
  • Como conectar todo mundo para a supervisão online, com o regulador presente em várias redes, ficou sem desenho.
  • Quem paga a conta de trocar o core bancário segue sem resposta — não há caso de negócio que passe na diretoria.

Termos citados

Core bancário
O sistema central que registra contas e transações de um banco, e roda de forma ininterrupta.
O trilho que a mesa discutiu tokenizar — e sobre o qual ouviu um nunca, neste momento.
Interoperabilidade
Capacidade de sistemas diferentes transacionarem entre si sem camada extra de conciliação.
Apontada como a palavra-chave para o mercado de fato evoluir.
Gêmeo digital
Cópia registrada em rede de um ativo que continua existindo fora dela, como camada a mais.
Era o desenho da maioria das soluções de tokenização um ou dois anos atrás.
Standard
Padrão comum de mercado que define como instrumentos, eventos e registros são descritos.
Sua ausência é o que impede substituir o core bancário hoje.
Canton
Plataforma citada como a de maior destaque hoje entre as candidatas a padrão do mercado.
Sem nenhuma garantia de ser o standard de fato daqui a dez anos.
Convertibilidade
Propriedade de uma moeda ser instantaneamente trocável por qualquer outra do mundo.
Hoje só o dólar a tem; a aposta na mesa foi de cinco anos para as demais.
T+0
Liquidação que acontece na hora, contra os três dias do fluxo internacional tradicional.
Descrito como o que as stablecoins já entregam entre praças diferentes.
Ativo virtual
Na definição trazida à mesa, é virtual porque não tem contraparte no mundo físico.
Veio da discussão de taxonomia e ontologia que abriu o debate técnico.
ISDA
Associação que padronizou a descrição dos contratos no mercado norte-americano.
Citada como o trabalho que o Brasil ainda precisa fazer com seus instrumentos.

Citados na sessãoFenasbac·Blockchain.RIO·Regulation Rocks·Banco Central·Bradesco·Núclea·Itaú·IBM·SAP·ISDA·Canton·Solana·Tron·Stellar·Bitcoin·Commodore·Casa Bradesco

TemasInteroperabilidade·Core bancário·Padronização·Supervisão·Tokenização

Quem falou

A seguir neste palco

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

Ver a programação