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Trends Stage

13/08 · 14h10–14h5040 min de sessãoresumo em 6 min

A camada de privacidade: por que o blockchain institucional na América Latina trava sem ela

Sem privacidade programável, o caso de uso financeiro não sai do piloto: a mesa voltou ao triângulo que o Drex não fechou.

Aaron StanleyBruno BataviaDaniel Marquez

O essencial

Contexto

Painel do Trends Stage conduzido por Aaron Stanley, do Brazil Crypto Report, com Bruno Batavia, sócio da Valor Capital Group e ex-Banco Central, e Daniel Marquez, chefe para a América Latina da Midnight Foundation. O recorte foi anunciado logo na abertura: não a privacidade individual do cypherpunk, e sim o nível de privacidade que a infraestrutura financeira precisa para rodar em escala.

A sessão em detalhe

Abertura

A privacidade em debate não é a do cypherpunk

A abertura separou duas conversas. Em cripto, privacidade quase sempre aparece no nível individual — não quero que o governo saiba disso, não quero que o banco central saiba disso —, casos de uso reconhecidos ali como válidos. O recorte do painel é outro: o nível de privacidade que o sistema financeiro mais amplo exige para que casos de uso escaláveis existam.

Competir, complementar ou substituir o sistema

O alvo declarado são sistemas capazes de competir com, complementar ou substituir a infraestrutura financeira existente — outra conversa, com muito da mesma tecnologia e do mesmo ethos cypherpunk.

Do Banco Central para o fundo, com Drex na bagagem

Na mesa há passagem pelas iniciativas de inovação do Banco Central reunidas na Agenda BC+, entre elas o Open Finance e o Drex, com trabalho na infraestrutura do projeto desde o zero.

A tese

Transparência é feature; no financeiro, vira bug

A virada acontece quando a iniciativa sai do piloto de prova de conceito e encosta em core banking e em infraestrutura de mercado de capitais: passa a lidar com dado sensível e com conformidade. O Brasil tem a LGPD, quadro legal muito parecido com o GDPR europeu, e a operação envolve dado pessoal.

A ordem parada no mempool é ordem exposta

Antes de liquidar, a transação fica no mempool, onde qualquer um consegue ver e entender o que você está tentando fazer. É a janela para terceiros correrem na frente.

Privacidade programável, e não bloco fechado

O supervisor precisa conseguir decifrar em algum estágio para checar atividade ilícita. Daí a exigência dupla: programabilidade do lado da privacidade e composabilidade.

Uma lista curta de quem valida

Em escala nacional, uma saída é a versão permissionada, com validadores que incluem infraestruturas de mercado e reguladores. Para o ethos mais amplo de cripto, como se admitiu ali, não é a melhor forma.

A transparência sempre foi uma característica, mas quando você pensa nos casos de uso financeiros centrais ela pode virar um bug.

O que trava

O triângulo do Drex: dois lados, e um de fora

O trilema entrou na mesa como já se fala em ciência da computação, à maneira dos triângulos impossíveis: escalabilidade, privacidade e programabilidade, com a regra de que só dois se resolvem de fato. O encerramento do Drex foi descrito pela mesma régua, sem contestação, com a composabilidade como a ponta que faltou.

Privado demais, e o regulador fica de fora

Pela leitura da mesa, às vezes era privado demais: o banco central não conseguiria impedir uma operação nem recuperar o que não deveria ter acontecido.

Cada camada de cifra cobra throughput

O efeito colateral aparece logo: contratos e protocolos interagem naturalmente até a criptografia entrar por cima, quando a composabilidade do lado dos dados quebra e a computação extra derruba as transações por segundo.

Um sistema financeiro de 200 milhões de pessoas

É a escala posta na mesa para dizer que a terceira ponta não é opcional: rodar um sistema financeiro inteiro em cima da rede exige escalar.

A ideia por trás desses triângulos é que você só consegue resolver dois. Se você resolve dois, o terceiro é o ponto fora da curva.

Em produção

Do Monero à cifra sob auditoria: a saída é híbrida

A sessão percorreu o que a indústria já investiu no problema: do Monero, transação privada sem composabilidade nenhuma, ao Zcash, até a fronteira atual, onde ficam a Canton e a própria Midnight resolvendo de maneiras diferentes. Na Midnight, a tese é privacidade do mundo real manifestada na arquitetura.

A aposta já tem contraparte bancária: uma parceria com o Monument Bank, na Inglaterra, para tokenizar até 250 milhões. A ideia é tokenizar de forma privada e assim destravar rendimento maior do que o do DeFi e produtos que hoje não conseguem existir.

Jardim murado de um lado, rede aberta do outro

A Canton foi descrita como um jardim murado. A Midnight sustenta a tese da descentralização total, em que qualquer um entra e compõe em cima do que já está lá.

Duas rotas dentro do mesmo contrato

Ao escrever o smart contract dá para usar provas de conhecimento zero ou cifrar o conteúdo e liberar a leitura a um auditor. A segunda rota é a que encaixa em ambiente regulado.

Night e dust: o gás não entrega o usuário

O sistema tem dois tokens: quanto de night você guarda gera dust, usado como gás. Como o dust é ativo blindado, a taxa não revela onde você gasta, o que faz nem com quem interage.

Cifrar tudo é ideia linda, e lenta

Com a Zama como exemplo, a ideia recebe muito investimento e funciona, mas decifrar e verificar sobre dado cifrado demora: em escala nacional não escala, e parte da computação vai para fora da cadeia.

Prova de campo

Dois polos de adoção, e o Brasil vindo de cima

A adoção latino-americana já aconteceu pelas stablecoins, em transação nacional e internacional, e isso resolve por enquanto. O que ainda não existe é o sistema on-chain que alcance quem está na base da pirâmide — e a região foi separada em dois extremos, com um meio-termo entre eles.

Venezuela e Argentina: adoção por falta de escolha

Nos sistemas financeiros extremos, a blockchain virou movimento de base porque as pessoas não tinham alternativa. O resultado é um público mais informado e que confia mais na tecnologia.

Brasil: de cima para baixo, do open finance

No outro extremo, o avanço veio pelo topo, do open banking ao open finance — apresentado como o primeiro mercado massivo do mundo a ter isso — e agora pergunta como integrar a nova tecnologia.

Colômbia, Peru e Chile no meio do caminho

Na Colômbia, a regulação é área cinzenta, com inflação histórica frente ao dólar sem hiperinflação e regras paradas há tempos. Nesses países do meio, falta muito trabalho para que a tecnologia seja compreendida.

A ruptura

Além do 1.0: o crédito de mil que fica privado

A última pergunta veio como reclamação de falta de imaginação: os casos de uso de stablecoin que existem são bons, mas são todos mandar dinheiro de uma ponta a outra da mesa, de forma mais rápida e mais barata — coisa de 1.0. Antes já havia aparecido o exemplo do café pago na Colômbia em USDT, com a pessoa do caixa vendo o saldo de quem pagava e concluindo que ali estava uma baleia. O que a privacidade destravaria além disso?

Tokenizar a obra e tomar crédito mais barato

O exemplo citado foi o de um banco de nicho imobiliário que tokenizou uma construção nova e usou o ativo no Morpho para conseguir uma taxa de juros menor.

Descer a cadeia: crédito de mil, e constante

O modelo que interessa é o mesmo movimento mais abaixo na cadeia de valor: em vez de crédito de milhões, crédito de mil, tomado o tempo todo e de forma privada.

O grande alvo já é alvo; o pequeno, não

Quem movimenta bilhões já é observado e pouco muda. Para quem é classe média ou classe média baixa, o empréstimo exposto vira problema com o vizinho — ou, no contexto colombiano, coisa pior.

Se você já é um grande alvo, você já é um grande alvo. Mas se você é apenas um indivíduo pequeno, de classe média ou classe média baixa, você quer essa privacidade.

O recado

Não seria painel de cripto em 2026 sem falar de IA

Já com o tempo estourando, a conversa foi puxada para a inteligência artificial. O encerramento veio na sequência: estavam literalmente sem tempo, não seria um painel de cripto em 2026 sem falar disso, e o assunto entrou bem no finalzinho.

Publicar o dado proprietário e vendê-lo na cadeia

Quem treina modelo precisa de conjuntos de dados proprietários. Com privacidade programável, o dono publica, a transação liquida e o contrato decifra com a chave certa para o comprador acessar.

Micropagamento de agente para agente

O exemplo chegou a volume de nível Cloudflare, com bilhões de transações processadas que não são monetizadas do jeito certo, e movimento de dinheiro entre agentes via MCP.

O que ficou

Assentado

  • Transparência total inviabiliza caso de uso financeiro central: no mempool, a ordem ainda não liquidada entrega a estratégia.
  • O encerramento do Drex foi tratado como fato na mesa, sem contestação, com a composabilidade apontada como o lado que ficou de fora.
  • Privacidade programável, com o supervisor capaz de decifrar quando houver suspeita, foi tratada como requisito, não opção.
  • A tecnologia amadureceu desde o Drex a ponto de a mesa falar em ponto sem retorno rumo a criptografia composável e rápida.

Em aberto

  • Padronizar a troca de dados entre ledgers e sistemas legados foi nomeado como desafio, sem caminho definido na mesa.
  • Quanto compromisso de arquitetura e de acesso a nó um projeto de escala nacional aceita continua sem resposta.
  • Identidade ampla on-chain e suitability foram postas como pré-requisito para escalar, sem prazo nem responsável.
  • Os produtos que a privacidade destravaria, do crédito pequeno ao dado de IA, ficaram no plano da ideia, sem piloto citado.

Termos citados

Mempool
Fila onde a transação enviada espera até ser incluída em bloco e liquidada.
Enquanto está lá, qualquer um lê a ordem e entende a intenção de quem a enviou.
Front-running
Correr na frente de uma ordem alheia já conhecida para lucrar com o movimento que ela vai causar.
O risco que a mesa associa à falta de privacidade on-chain no mercado.
Composabilidade
Capacidade de contratos e protocolos diferentes interagirem entre si sem adaptação.
O lado do triângulo que, segundo a mesa, o Drex não conseguiu entregar.
Privacidade programável
Privacidade com regra embutida, que define quem pode decifrar o quê e em que situação.
A exigência para que o supervisor consiga verificar atividade ilícita.
Prova de conhecimento zero
Prova de que algo é verdadeiro sem revelar o dado que sustenta a afirmação.
Uma das duas rotas oferecidas pela Midnight na hora de escrever o contrato.
Verificação sobre dado cifrado
Checar que algo ocorreu dentro de um conjunto de dados que segue criptografado.
Citada com a Zama como exemplo: funciona, recebe investimento e ainda é lenta.
Jardim murado
Rede fechada, em que só participantes autorizados entram e compõem.
Termo usado para descrever a Canton, em oposição à descentralização total.
Dust
Token de gás da Midnight, gerado a partir do night e tratado como ativo blindado.
Como a taxa é blindada, ela não revela transação, destino nem contraparte.
Drex
Iniciativa do Banco Central do Brasil para levar o sistema financeiro a uma infraestrutura em blockchain.
A iniciativa apareceu no painel pelos dois lados: a construção da infraestrutura e o encerramento.

Citados na sessãoMidnight Foundation·Valor Capital Group·Brazil Crypto Report·Banco Central·Agenda BC+·Open Finance·Drex·LGPD·GDPR·Monero·Zcash·Canton·Zama·Monument Bank·Ethereum·Solana·Morpho·Cloudflare

TemasPrivacidade·Blockchain Institucional·Drex·Stablecoins·América Latina

Quem falou

A seguir neste palco

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

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