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Trends Stage

13/08 · 14h55–15h1520 min de sessãoresumo em 6 min

A importância das startups e do investimento em tecnologia para a economia do estado

No lugar do discurso de startup, uma conta: 19 Big Techs faturam quase o PIB do Brasil.

Juliana Benício

O essencial

Contexto

Keynote de 20 minutos no Trends Stage, com Juliana Benício, doutora em Engenharia de Produção e professora do IFRJ. A promessa foi não ficar no campo das ideias: a sessão partiu da tese de que problema estrutural só se resolve com política estrutural, comparou o faturamento das Big Techs com o PIB brasileiro e terminou no Distrito de Inovação da Cantareira, com supercomputador e acesso a computação quântica.

A sessão em detalhe

Abertura

Problema estrutural pede política estrutural

A abertura reconheceu o clichê: falar de startup é coisa que se faz há mais de 20 anos. O enquadramento proposto foi outro — uma estratégia capaz de reposicionar o Brasil e o estado do Rio na nova geopolítica mundial. Com a promessa de não ficar no campo das ideias, a apresentação terminou no que já foi construído.

A fome como exemplo do que é pontual

A fome é um problema estrutural do país. A rede de fraternidade com quem está na rua é devida, mas quem resolve o problema, ficou dito, são ações estruturantes.

A cultura tratada por edital, não como indústria

O Brasil tem talento enorme e não enxerga a cultura como indústria — games, música, audiovisual. O edital age pontualmente, e por isso não constrói setor.

A mesma régua vale para tecnologia

É o mesmo raciocínio quando se pensa em investimento em tecnologia dentro da economia do conhecimento: sem política de Estado, a ação isolada não muda o patamar.

A tese

Estamos no capitalismo do conhecimento

A sessão deu um passo atrás para contextualizar o argumento: o capitalismo de mercado, o industrial, o financeiro e, agora, o do conhecimento. Nessa fase, startup e inovação deixam de ser vitrine e viram palavras estruturais — quem não atua por elas não é player.

A inovação de verdade começa no laboratório

A origem da inovação foi localizada nos laboratórios, sobretudo universitários. No Brasil, pela avaliação apresentada, são pouquíssimos os centros que tratam a inovação de verdade nesse estágio.

O ciclo produtivo tem de incluir o amanhã

Na engenharia de produção, a literatura já está sendo revisitada: o ciclo não termina no que a empresa faz hoje, precisa incluir o que ela vai vender amanhã.

Quatro etapas, da ciência básica ao mercado

São quatro etapas até a entrega de uma solução que gera valor para o mercado. A ciência básica é o colchão de externalidades positivas que faz a inovação sair do papel.

A gente teve o capitalismo de mercado, capitalismo industrial, capitalismo financeiro e agora a gente está no capitalismo do conhecimento.

Os números

19 Big Techs faturam quase o que o Brasil produz

A conta que foi à tela: somadas, as 19 maiores Big Techs do mundo faturam US$ 2,4 trilhões por ano. Todas são empresas da economia do conhecimento e todas vieram de soluções iniciadas em laboratório, com ciência. O PIB brasileiro chega muito perto desse número, US$ 2,3 trilhões — só que para gerá-lo o país usa 200 milhões de pessoas.

Metade da turma foi para a Petrobras

O relato de uma turma de engenharia formada nos anos 2000: metade foi para a Petrobras e metade para o mercado financeiro — o potencial de uma grande empresa no território.

Uma Apple ou uma Nvidia vale US$ 3,3 trilhões

A comparação seguinte foi de valor de mercado: a empresa da economia tradicional de um lado, a da economia do conhecimento do outro, com US$ 3,3 trilhões.

A empresa tradicional precisa entrar nessa economia

Não é que as tradicionais fiquem de fora, ficou a ressalva: elas precisam ingressar e compreender que a inovação atravessa toda a operação, e não apenas uma área da casa.

O que trava

O vale da morte brasileiro não é o americano

Aqui a sessão recusou uma importação teórica. O vale da morte existe, mas no Brasil não se explica pela fragilidade das startups, e sim pela configuração da economia. É onde o MVP entra: dar percepção de mercado à solução e um mercado onde ela possa rodar — e é por isso, argumentou-se, que o poder público precisa bancar MVP em massa.

O país faz pesquisa muito bem e usa muito mal

Na avaliação apresentada, as etapas de pesquisa o Brasil executa bem; o que falha é o uso. O investimento vem crescendo proporcionalmente mais nas ciências sociais e precisa voltar para a tecnologia.

A defesa como reduto de pesquisa aplicada

A pesquisa de defesa brasileira foi citada como exemplo do que se quer ver financiado: um grande reduto em que se pesquisa já pensando na solução aplicada.

3 bilhões investidos, e o caminho é a corporação

O mercado é pequeno, mas crescente: são 3 bilhões movimentados em startups brasileiras. Sem se financiar no mercado comum, a startup depende da grande corporação — caminho doloroso e político.

R$ 5,3 bilhões, ou 1,3% do PIB

É o que faturam as startups da cidade do Rio, o equivalente a 1,3% do PIB na conta apresentada. Muito pouco para quem quer dizer que entrou na economia do século XXI e ver um Vale do Silício funcionando.

O vale da morte no Brasil, infelizmente, tem muito mais a ver com a configuração da economia brasileira do que com as fragilidades das startups brasileiras.

O recado

Manchester não esperou a Inglaterra

A tese do local: Manchester não esperou a Inglaterra fazer a revolução industrial, e depois o mundo inteiro fez. Detroit também não esperou os Estados Unidos para o fordismo, e a produção em massa virou o meio de produção de quase todas as corporações. O local tem potência — e, com política local, dá para repetir a jogada.

Antes era asfalto; agora é conhecimento

O município que fazia asfalto trazia empresa e progresso; depois veio o saneamento. A política pública foi ficando complexa na mesma medida em que a sociedade ficou complexa.

Organizar a ciência até a ponta de mercado

O trabalho atribuído ao poder público é organizar o conhecimento científico até a ponta de mercado — construir essa infraestrutura, não distribuir uma linha de crédito.

Teatro de edital ou política estruturante

A escolha posta à plateia: seguir ajudando uma ou outra startup com edital e linha de crédito, ou encarar uma política que reorganize a economia do estado.

A política pública vai se tornando complexa à medida que a nossa sociedade se torna complexa.

Em produção

O distrito não pode ser um shopping de startup

A realização veio no fim: o Distrito de Inovação da Cantareira. A crítica é ao modelo em que a startup chega, paga aluguel e vive num shopping onde todo mundo é de tecnologia. O modelo descrito é o contrário — o conhecimento organizado desemboca no colo da startup, que não precisa sair peregrinando atrás de solução.

Supercomputador da Nvidia e acesso quântico

O espaço tem o supercomputador da Nvidia e o que foi apresentado como primeiro acesso quântico da América Latina. Metade do aparato vai para pesquisadores selecionados, metade para empresas.

O pesquisador que não podia rodar o estudo

O caso contado no palco: a Pfizer bate na porta de um pesquisador para rodar um fármaco novo, e ele não pode aceitar onde está. Na infraestrutura pública, ele roda a pesquisa e monetiza.

No Rio, a pesquisa ganha no impacto

Em número de publicação o estado perde para São Paulo; em relevância e impacto — o quanto se lê e se cita — ficou dito que o Rio vai muito bem, por causa dos centros de excelência.

A IBM quis estar junto, não só vender

Na apresentação do trabalho, a resposta da IBM foi que não se tratava só de vender: os pesquisadores locais poderiam desenvolver o computador híbrido entre o tradicional e o quântico.

Gente, a gente começa a ser player dentro de uma configuração mundial de desenvolvimento dessa tecnologia.

O que ficou

Assentado

  • O Distrito de Inovação da Cantareira foi apresentado como já lançado, com supercomputador da Nvidia e acesso quântico.
  • Metade do aparato computacional fica com pesquisadores selecionados e metade com empresas e startups do distrito.
  • As 19 maiores Big Techs faturam US$ 2,4 trilhões por ano, quase o tamanho do PIB brasileiro, de US$ 2,3 trilhões.
  • As startups da cidade do Rio faturam R$ 5,3 bilhões, o equivalente a 1,3% do PIB — pouco, na conta apresentada.

Em aberto

  • Nenhum prazo, orçamento ou instrumento legal foi apresentado para a política estruturante defendida na sessão.
  • Não ficou dito quando o distrito recebe empresas nem por qual critério os pesquisadores são selecionados.
  • Como redirecionar para a tecnologia o investimento em pesquisa que, pelo diagnóstico apresentado, vem crescendo proporcionalmente mais nas ciências sociais.

Termos citados

Economia do conhecimento
Fase do capitalismo em que a riqueza vem da ciência e da inovação, e não da indústria ou das finanças.
A quarta fase na sequência traçada no palco.
Vale da morte
Etapa entre a pesquisa pronta e o mercado, em que a maioria das soluções não sobrevive.
Importar o conceito americano sem olhar a economia brasileira foi recusado no palco.
MVP
Versão mínima da solução, lançada para testar se existe mercado para ela.
Defendeu-se uma fábrica de MVP e MVP em massa bancados pelo poder público.
Ciência básica
Pesquisa sem aplicação imediata definida, que serve de base para as etapas seguintes.
O colchão do qual, na tese da sessão, tudo o mais depende.
Externalidade positiva
Benefício que a pesquisa gera para fora de quem a financiou ou executou.
O que sustenta, na conta apresentada, as inovações que saem do papel.
Corporate venture
Investimento de grandes corporações em startups, em vez de capital do mercado comum.
Via que, no diagnóstico da sessão, concentra o financiamento das startups brasileiras.
Fordismo
Modelo de produção em massa e em escala nascido em Detroit e copiado pelo mundo.
Exemplo, no palco, de inovação local que virou padrão global.
Computador híbrido
Máquina que combina computação tradicional e computação quântica.
O que a IBM apontou como desenvolvimento possível com pesquisadores do Rio.

Citados na sessãoIFRJ·Distrito de Inovação da Cantareira·Petrobras·Apple·Nvidia·IBM·Pfizer·Manchester·Detroit·Vale do Silício·São Paulo

TemasStartups·Economia do conhecimento·Política pública·Inovação·Rio de Janeiro

Quem falou

A seguir neste palco

Tradução simultânea em legendas — PT, EN e ES — durante todo o evento.

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